EDITORIAL

COMEÇAR DO NOVO!

Este é o último número da série da revista com o título Histórica. A revista continua, mas mudará o seu rumo editorial e ganhará novo conteúdo e nova roupagem.

Este número 63 é uma espécie de edição de transição, pois a revista continua com elementos da série on line iniciada em 2005, mas já traz algumas novidades que indicam a nova direção da publicação.

A mudança deste periódico reflete as fortes transformações que o APESP vem experimentando desde meados de 2013, quando se iniciaram muitas alterações na sua política institucional e produção técnica.

As mudanças no Arquivo Público do Estado de São Paulo buscam alinhamento com o que há de mais avançado em política de arquivos no mundo, porém se inspiram também em práticas passadas, não muito longínquas na história da instituição.

As edições periódicas deste Arquivo já passaram por diversas mudanças. Desde O Boletim, editado em 1942, até a presente Histórica on line, foram várias experiências de trocas nos títulos, nos estilos e nos conteúdos editoriais. Percebe-se que o perfil editorial oscilava entre a abordagem historiográfica e aquela mais próxima do que hoje conhecemos como arquivística. Entre 1993 e 2003, o Arquivo chegou a publicar dois periódicos simultâneos: o Boletim do Arquivo, “voltado para a divulgação da Arquivologia e das experiências acumuladas na árdua tarefa de preservar e permitir o acesso à documentação pública”, e a Histórica - Revista do Arquivo Público, que propunha a ajudar “o leitor a situar-se no cerne do debate historiográfico contemporâneo”.

Temos clareza de que o nosso objeto tem uma interface muito acentuada com a História (no sentido epistemológico). Porém, mesmo a produção de conteúdo historiográfico, feito sob a ótica dos profissionais de arquivos, tem o seu viés próprio e particular.

Não nos distanciamos dos historiadores, mas revelamos a equidistância do nosso ofício com outras áreas indissociáveis dos arquivos: gestão pública, administração, direito administrativo e, claro, as demais ciências da informação.

Não há tensão entre historiadores e arquivistas, assim como não há fronteiras rígidas entre o ofício de um e de outro. Mas não há dúvidas de que ambos mantêm os traços identitários dos seus afazeres. Isso vem de longe, como podemos ler nas palavras de Abreu e Silva, diretor do Arquivo Público do Rio Grande do Sul na década de 1920:

Não é, pois da competência do Archivo analysar e commentar documentos e delles tirar ilações ou sobre elles compor narrativas, - o que é obra do historiador; mas colligir, coordenar e catalogar documentos de autoridade historica, - o que é tarefa propriamente do archivista. O trabalho deste facilita o daquelle; um accumulando e classificando documentos, testemunhos, forma o processo histórico, sobre o qual o outro cala o seu trabalho, sem dúvida bem mais árduo e difícil.[1]Trecho extraído do artigo Arquivo como editora: análise de uma trajetória e a construção de um conceito, de Haike Roselane Kleber da Silva, São Paulo, 2009.

A grafia foi mantida exatamente para indicar a distância temporal: este texto é do início do século XX! Claro, os tempos são outros, o arquivo contemporâneo assume perfil bem mais complexo do que o desenhado por Abreu e Silva; e, convenhamos, não há nenhum pecado quando um arquivista, no exercício do seu ofício, se propõe a interpretar a história ou mesmo quando o historiador se esforça em resignificar os arquivos.

O que muda na Revista

A partir da próxima edição, este periódico passará a se chamar, simplesmente, REVISTA DO APESP. Iniciar-se-á nova numeração; no Conselho Editorial da Revista serão agregados pesquisadores e profissionais da Arquivologia; a Revista ficará mais plural e, além da abordagem historiográfica, divulgará temas que circundam os eixos centrais que articulam as instituições arquivísticas (gestão, preservação, acesso à informação, difusão); a produção do conhecimento realizada cotidianamente na instituição será destacada, assim como a publicação de artigos de qualquer natureza, que divulguem conhecimentos produzidos a partir do nosso acervo ou de outros arquivos do mundo.

O Arquivo Público do Estado está de volta ao seu leito natural e esta Revista se propõe a refletir isto. Temos muito orgulho em buscar a nossa identidade de Arquivo, essa instituição ambivalente e peculiar, fundamental para a garantia dos direitos dos cidadãos, fundamentação da memória individual e coletiva, compreensão do passado, documentação do presente e orientação das ações futuras”.[2]Conforme Declaração Universal sobre os Arquivos, Conselho Internacional dos Arquivos.

O que o leitor vai encontrar nesta edição de número 63

Uma seção com coletânea de artigos de vários autores que trazem reflexões sobre o tema da representação política e eleições.

A seção Intérpretes de Acervo é uma coletânea de reportagens que têm como foco o pesquisador do APESP e seus objetos de pesquisa. Trata-se de interessantes matérias produzidas a partir de entrevistas com alguns de nossos usuários voltados para a pesquisa acadêmica, que revelam segredos peculiares dos documentos e que podem sugerir boas pistas para os novos pesquisadores. Essa seção revela, também, o potencial inestimável dos usos dos ricos documentos de um Arquivo.
Em Imagens de uma época retrata-se a inusitada Universidade de São Paulo, fundada em 1911.

Na seção Prata da Casa, destaca-se a mais recente exposição do APESP.

Chamamos a atenção para essa exposição pois ela ilustra muito bem uma questão aludida neste editorial: assim como esta Revista, a exposição Em nome d'El Rey: 250 anos do Governo Morgado de Mateus em São Paulo (1765-2015) assumiu o desafio de propor uma abordagem muito aderente à instituição Arquivo. Menos preocupada com narrativas interpretativas do período histórico tratado, a exposição busca explorar o universo vocabular da ciência arquivística, pondo em destaque a riqueza da diplomática, o erudito ofício da paleografia e o artesanal trabalho de conservação e restauro.

É para ver, ler e nunca mais esquecer!

Trecho extraído do artigo Arquivo como editora: análise de uma trajetória e a construção de um conceito, de Haike Roselane Kleber da Silva, São Paulo, 2009.

Conforme Declaração Universal sobre os Arquivos, Conselho Internacional dos Arquivos.

O prazo para envio dos artigos, assim como o tema da próxima edição da revista, serão informados em breve

Arquivo Público do Estado de São Paulo