São Paulo e suas águas: passado e presente
EDITORIAL

Entre os fundos documentais custodiados pelo Núcleo de Acervo Cartográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo, encontramos mapas produzidos por instâncias do governo estadual, como a Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo e a Comissão Geográfica e Geológica. Esses documentos são datados do período de fins do século XIX à primeira metade do século XX. Foram elaborados numa época onde a administração buscava conhecer melhor o ambiente físico paulista, e mais particularmente o do Interior, do qual ainda restavam vastas porções de terra inexploradas. Tal acervo foi objeto de uma exposição recente no Arquivo, intitulada O Tempo e as Águas: formas de representar os rios de São Paulo. A exposição estreou em 2013 e ficou em cartaz até o primeiro semestre deste ano.

Como num espelho retrovisor, que nos mostra o local por onde acabamos de passar, estes mapas evidenciam dados recentes, mas já esquecidos, sobre a cidade onde moravam os paulistanos de fins do século XIX e começos do século XX. O resultado é uma São Paulo quase inimaginável, completamente diferente da que hoje conhecemos. E um dado fundamental salta aos olhos: esta era uma cidade cheia de rios.

O que houve com eles?

Neste número da Revista Histórica Online, procuramos responder a essa pergunta através de três das comunicações produzidas para o evento São Paulo e suas Águas: passado e presente. O seminário encerrou a exposição O Tempo e as Águas, e foi realizado no dia 20 de março de 2014. Em seus debates e mesas-redondas, destacou-se a preocupação de resgatar a história de nossos rios, para explicar o presente e planejar o futuro.

Assim, no primeiro texto desta edição, Na beira dos rios de São Paulo, gente, bichos e plantas, 1890-1940, Janes Jorge nos mostra uma paisagem da cidade que hoje mal podemos imaginar – cortada por inúmeros rios e córregos, banhada por várzeas, abundante em caça e frutas, que eram encontradas às margens dos cursos d’água. A população usava essas áreas para o seu lazer, e também como fonte de alimentação. Mas o crescimento populacional – entre 1872 e 1934, São Paulo cresceu 5689% – e o avanço da área urbana modificaram essa relação, como explica Fábio Santos em Inundações na cidade de São Paulo: uma construção social. As enchentes, naturais numa área com tantos rios e várzeas, começaram a ser vistas como um empecilho ao progresso – ou, pior ainda, como eventos causadores de tragédias. Isso porque a ocupação dessas mesmas várzeas fez com que as enchentes atingissem as áreas urbanizadas, provocando 

prejuízoe até mortes. Ou seja, a relação do paulistano com a natureza que o cercava, e, mais particularmente, com seus rios, se modificou nessa época.

No artigo São Paulo e seus rios em finais do século XIX: dos planos à criação da Comissão de Saneamento das Várzeas, Cristina de Campos mostra como, ao longo desse processo, as várzeas dos rios paulistanos se tornaram alvo de intervenções para “saneá-las”. Isso aconteceu, inclusive, na contramão de algumas propostas que procuravam preservá-las, integrando-as à paisagem urbana. As propostas vencedoras apontavam na direção contrária: canalização de córregos, drenagem das várzeas e impermeabilização do solo. Nas décadas seguintes, o crescimento desordenado da cidade causou a degradação dos seus maiores cursos d’água. A principal vítima desse processo foi o Tietê, que passou de espaço de lazer e canal de navegação a um esgoto a céu aberto.

Saindo um pouco da cidade de São Paulo, o artigo de Sílvia Helena Zanirato, Patrimônio cultural e natural do Alto Tietê. Desafios da conservação das memórias no marco da gestão do espaço, discute os esforços de conservação do rico patrimônio natural e cultural às margens do rio, em cidades como Biritiba Mirim, Mogi das Cruzes, Suzano, Poá, Itaquaquecetuba, Guarulhos, São Paulo, Osasco, Barueri, Carapicuíba e Santana do Parnaíba, entre outras. E Paulo Martinez, em Rio Paranapanema: Águas e Destinos Coletivos (1886-1966), mostra como outro importante curso d’água paulista foi modificado para servir à crescente necessidade de energia elétrica do Estado.

Esta edição da Histórica Online mostra também o trabalho do Núcleo de Acervo Cartográfico para construir os chamados mapas georreferenciados, usando ferramentas da Tecnologia da Informação. E na seção Imagens de uma época, as fotos da Repartição de Águas e Esgotos mostram um pouco da construção do Sistema Cantareira, em finais do século XIX.

A partir de março de 2015, uma nova versão da Revista Histórica Online chega ao site do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Agora, além de artigos científicos, a revista também terá reportagens sobre a instituição, seus fundos documentais e o trabalho que ela vem desenvolvendo. Aguarde!

O prazo de envio de artigos para a próxima edição da Histórica, cujo tema é “Eleições”, já está encerrado.

Arquivo Público do Estado de São Paulo