Artigo
Diálogo entre amigos: análise filológica e linguística da correspondência entre Washington Luís e Júlio Prestes de Albuquerque
Verena Kewitz [1]

Resumo:
Neste artigo apresento uma descrição filológica e linguística da correspondência trocada por Washington Luís e Júlio Prestes na primeira metade do século XX. Os aspectos analisados vão desde os elementos gráficos dos textos até aspectos morfossintáticos (uso de pronomes pessoais, fórmulas fixas etc.) e textuais, como marcas de correção, temas tratados, entre outros. Essa pesquisa faz parte do projeto temático História do Português Paulista II (FAPESP 11/51787-5), em que se investiga a história da variedade paulista do português em diferentes perspectivas a partir de documentos antigos e textos orais.

Palavras-chave: Diálogo. Correspondência. História do Português Paulista.

Abstract:
This paper aims at describing some philological and linguistic features of the correspondence between two important Brazilian politicians exchanged in the first half of the 20th century, namely Washington Luís and Júlio Prestes. As part of a broader project, the research involves selecting and editing manuscripts written by people born in the State of São Paulo so as to investigate the language status through the centuries. The letters were selected from the archive of both politicians (preserved in Arquivo Público do Estado de São Paulo), in order to identify traces of the dialogue held between them. The analysis is based on morphosyntactic aspects, such as the use of personal pronouns, and textual elements like correction marks, topic development and so forth.

Keywords: Dialogue. Correspondence. History of Paulista Portuguese.

Introdução

Antes de apresentar os objetivos deste artigo é pertinente lembrar que "lidar com uma língua natural é operar com um objeto científico 'escondido'." (CASTILHO, 2010, p. 41). Para entender essa afirmação basta comparar a tarefa de um linguista à de um químico. Este lida, em termos gerais, com substâncias quanto a sua composição, estrutura e propriedades e as possíveis mudanças ocorridas durante as reações químicas. Seu objeto é, portanto, externo ao ser humano. O linguista, ao contrário, lida "com um objeto guardado em sua mente e na mente dos indivíduos de sua comunidade" (op. cit.). Semelhante concepção vale para a maioria das demais ciências humanas, tais como História, Psicologia, Antropologia etc.

A definição de linguagem/língua não é unânime nem mesmo entre os linguistas. Seu ponto de vista sobre esse objeto "escondido" determinará que elementos serão analisados, as perguntas que pretendem responder e assim por diante. Se o linguista quer, por exemplo, desvendar os processos de construção de um enunciado, deverá recorrer a textos falados, já que é nessa modalidade que se podem depreender mais claramente os processos. Em textos escritos, no entanto, os processos são, em geral, apagados, há mais espaço para reelaborações, correções, já que há certo distanciamento entre o momento do planejamento do texto e de sua execução ou publicação (KOCH; OESTERREICHER, 1990). Essa diferença, a princípio óbvia, revela uma rede complexa de condições subjacentes à produção de textos orais e de textos escritos se dispostos numa escala[2]. Ao falar, o ser humano aciona estratégias comunicativas adequadas a cada situação comunicativa. O mesmo vale para a produção de textos escritos, mais planejados e elaborados. No entanto, cada um desses pólos do continuum apresentam condições e estratégias comunicativas prototípicas e não opostas.

Com esse pano de fundo, pode-se então inserir o objetivo central deste artigo, que é a análise do diálogo entre duas figuras públicas através de seus escritos. A concepção de diálogo colocada aqui segue uma das condições propostas por Koch; Oesterreicher (1990) no que diz respeito ao grau de dialogicidade que se pode depreender de vários tipos de texto. Nesse sentido, a troca de cartas entre pessoas pode corresponder a certo grau de dialogicidade, dada a continuidade dos assuntos tratados à medida que vão sendo produzidas. É nesse plano que abordo aqui o diálogo entre Washington Luís e Júlio Prestes.

O presente artigo está assim dividido: primeiramente, contextualizo a seleção e coleta de documentos de interesse aos estudos linguísticos e como são editados para esse fim. Em seguida, apresento os documentos analisados para entrever o diálogo na correspondência trocada entre Washington Luís e Júlio Prestes quanto aos temas tratados e características filológicas e linguísticas gerais. Por fim, proponho uma forma de analisar o diálogo considerando a totalidade de documentos que permaneceram nos arquivos privados de ambos os políticos.

1. O contexto da edição dos documentos sob análise

O advento do gravador no século XX abriu espaço para as pesquisas sobre a modalidade oral de línguas naturais. O Brasil contou com o Projeto NURC (Norma Urbana Culta) a partir da década de 1960, o que acarretou na criação de outros projetos coletivos, a exemplo do Projeto de Gramática do Português Falado (CASTILHO, 2015). Esse projeto, em particular, dedicou-se a estudar a variedade culta falada do Português Brasileiro (doravante PB) em diversos níveis de análise (fonologia, morfologia, sintaxe e texto) sob diferentes perspectivas teóricas (formalistas e funcionalistas)[3]

Na década de 1980, as pesquisas voltam-se para questões relacionadas às origens do PB e às diferenças em relação ao Português Europeu. São criados, então, os Projetos Para a História do Português Brasileiro (em 1997) e História do Português Paulista (ou Projeto Caipira[4]. O objetivo central desses projetos é historiar o PB a partir de documentos de sincronias passadas em comparação aos dados atuais de oralidade e de escrita. Para tanto, a seleção de documentos que possam servir de fonte confiável para pesquisas linguísticas é feita de forma criteriosa, envolvendo, por exemplo, a nacionalidade do autor, a motivação, o tema e o grau de publicidade do documento, dentre outros aspectos (SIMÕES; KEWITZ, 2009). Um dos desafios desses projetos refere-se à representatividade dos documentos de acervos públicos e privados. A esse respeito,

A documentação escrita em português só pode ser avaliada na sua totalidade aproximada por hipóteses que se coloquem a partir do que permaneceu e de informações indiretas que o historiador pesquise. Assim o conhecimento de qualquer estágio passado de qualquer língua – se ela é documentada por algum tipo de escrita ou inscriçãoé sempre fragmentado, porque fragmentário é o espólio de que dispõe o pesquisador. O investigador (...) terá de condicionar a seleção de seus dados à documentação remanescente. (...) Daí Labov ter definido muito adequadamente os estudos diacrônicos ao longo dos séculos (...) como «a arte de fazer o melhor uso de maus dados». Maus dados porque «os fragmentos da documentação escrita que permanecem são o resultado de acidentes históricos para além do controle do investigador». (MATTOS E SILVA, 1994, p. 28-29, meus grifos).

Apesar de ser fragmentário, o espólio de que dispomos nos acervos nacionais e internacionais pode proporcionar uma gama considerável de documentos interessantes para os estudos linguísticos. Dessa forma, o Projeto Caipira propôs a seguinte divisão de corpora do português paulista[5]:

(a) Corpus mínimo manuscrito: inventários e testamentos, atas de câmara, processos, cartas

(b) Corpus mínimo impresso: notícias, cartas de leitor, cartas de redator, anúncios de jornais

(c) Corpus diferencial: inquéritos orais, diários de viagem, memórias históricas etc.

A diversidade de tipos de texto possibilita, por exemplo, entrever diferentes normas linguísticas atreladas a cada esfera de produção, desde textos mais controlados e formulaicos até textos menos controlados contendo o que chamamos de "norma popular". Além disso, cada tipo de texto dará espaço para o uso de certas estruturas, formas e expressões que não necessariamente aparecem em qualquer texto (JACOB, 2001).

A tipologia carta, como se sabe, é bastante variável levando em conta o grau de publicidade, a relação entre os interlocutores, os assuntos tratados, as fórmulas mais ou menos fixas etc. Por isso, foram classificadas em três subtipos: cartas pessoais, cartas de administração privada e cartas oficiais. A partir das condições e estratégias comunicativas propostas por Koch; Oesterreicher (1990), pode-se classificá-las razoavelmente como no quadro abaixo:

Carta pessoal Carta de Administração privada Carta oficial
relação simétrica relação assimétrica relação assimétrica
documento privado documento semipúblico documento público
tema livre tema ± fixo tema altamente fixo
menor grau de controle do texto texto semicontrolado contendo algumas fórmulas fixas texto altamente controlado e formulaico

Quadro 1: Características prototípicas dos tipos de carta

Essa classificação permite determinar os subtipos de cartas, como também observar mais detalhadamente as especificidades de cada documento ou conjunto de documentos mais distantes do nosso olhar de leitor contemporâneo.

O tipo de edição de documentos antigos depende de dois principais critérios inter-relacionados: o público-alvo e o grau de intervenção do editor (SANTIAGO-ALMEIDA, 2009). A edição modernizada, por exemplo, apresenta atualização da ortografia, acentuação, pontuação etc. para que o público geral possa entender o conteúdo do texto. Para pesquisas linguísticas, ao contrário, a edição deve conservar todas as formas tais como se apresentam no documento original, e, neste caso, a edição mais adequada é a semidiplomática[6]. De um lado, nem todo pesquisador é especializado em leitura de manuscritos; de outro lado, nem sempre é possível apresentar o fac-símile ao lado da edição por razões várias.

A edição semidiplomática da correspondência de Júlio Prestes dirigida a Washington Luís (ALBUQUERQUE; FERREIRA; KEWITZ 2015) seguiu as normas propostas em Mattos e Silva (2001 Org.) com eventuais adaptações como a reprodução quase fiel de todos os elementos impressos (carimbos, timbres etc.), a disposição das linhas tal como nos originais e notas explicativas de lugares e personalidades mencionados no documento, nem sempre conhecidos na atualidade. O exemplo abaixo ilustra o tipo de edição realizada:

Figura 1: Fac-símile de cartão-postal de Júlio Prestes a Washington Luís (20/01/1932), Arquivo do Estado de São Paulo (APWL 194.2.109). Autor da Imagem: Flávio Morbach Portella (2013).

Figura 1: Fac-símile de cartão-postal de Júlio Prestes a Washington Luís (20/01/1932), Arquivo do Estado de São Paulo (APWL 194.2.109). Autor da Imagem: Flávio Morbach Portella (2013).

Figura 2: Edição semidiplomática do cartão postal (ALBUQUERQUE; FERREIRA; KEWITZ, 2015, p. 73) Figura 2: Edição semidiplomática do cartão postal (ALBUQUERQUE; FERREIRA; KEWITZ, 2015, p. 73)

Figura 2: Edição semidiplomática do cartão postal (ALBUQUERQUE; FERREIRA; KEWITZ, 2015, p. 73)

Os documentos que fazem parte da correspondência de Júlio Prestes a Washington Luís são: cartas manuscritas e datiloscritas, cartões postais e telegramas. Os documentos de Washington Luís dirigidos a Júlio Prestes, por sua vez, são cartas manuscritas e datiloscritas e alguns telegramas[7]. No quadro abaixo estão dispostos os dados gerais dos documentos de cada acervo consultado:

De Júlio Prestes a Washington Luís
Período Nº de documentos Locais Tipologia
16/02/1910 – 08/05/1932 (e s/data) 28 São Paulo, navios, EUA, Portugal Cartas manuscritas, datiloscritos, cartões postais e telegramas
De Washington Luís a Júlio Prestes
Período Nº de documentos Locais Tipologia
25/12/1920 – 19/11/1928 (e s/data) 10 São Paulo, Rio de Janeiro e Petrópolis Cartas manuscritas, datiloscritos e telegramas
24/05/1930
08/05/1932
2 Rio de Janeiro
Paris
Rascunhos manuscritos

Quadro 2: Lista de documentos dos acervos de Júlio Prestes e de Washington Luís (APESP) analisados

2. Os temas e as formas linguísticas encontradas nas cartas

Na seção anterior, apresentei uma classificação para os tipos de carta mais comuns em acervos privados. Retomando as características prototípicas de cada subtipo e relacionando-as à correspondência trocada entre Júlio Prestes e Washington Luís, pode-se entrever as seguintes condições e estratégias comunicativas (KOCH; OESTERREICHER, 1990):

(a) Caráter privado;

(b) Grau médio e alto de intimidade, que se depreende dos documentos;

(c) Componentes emocionais limitados;

(d) Distância física entre Júlio Prestes a Washington Luís;

(e) Nenhuma cooperação durante a produção dos documentos;

(f) Grau médio de dialogicidade, levando-se em conta a continuidade da correspondência;

(g) Grau médio de espontaneidade, considerando-se o texto mais elaborado;

(h) Núcleo temático ora fixo, ora flexível;

(i) Planejamento controlado do texto.

Os temas da correspondência são razoavelmente variados, ora limitados à esfera política de ambos, ora se ampliando a questões familiares, como vemos a seguir:

De Júlio Prestes a Washington Luís De Washington Luís a Júlio Prestes
  • Viagens pelo Brasil para campanha eleitoral (1929-1930)
  • Viagens pelos EUA e Europa
  • Pedido de nomeação de amigos/conhecidos
  • Elogios e agradecimentos
  • Impressões sobre a política paulista e nacional; negociações
  • No exílio: sua localização, notícias pessoais (viagens) e votos de aniversário e boas festas.
  • Eventualmente notícias do Brasil recebidas de amigos
  • Comunicação de envio de presentes
  • Palavras de incentivo ao governo de Júlio Prestes da Presidência do Estado de São Paulo
  • Relatos de negociações econômicas
  • Pedidos de dados econômicos (café) de São Paulo e de envio de jornais
  • Elogios ao governo de Júlio Prestes
  • Apresentação de amigos para a campanha eleitoral
  • No exílio: agradecimento pela estadia na casa de Júlio Prestes em Portugal; notícias do Brasil; assassinato do presidente francês Doumer

Quadro 3: Lista de temas tratados na correspondência entre os estadistas

Pelo quadro acima, pode-se entrever que grande parte dos temas giravam em torno da política local (São Paulo) e nacional, sobretudo quando Júlio Prestes estava na Presidência de São Paulo e Washington Luís na Presidência do Brasil. A situação de exílio de ambos dá espaço para o surgimento de questões pessoais, além do tema político.

As formas linguísticas encontradas nos documentos são de variada ordem. Há o uso de fórmulas típicas de documentos com menor grau de intimidade, como “sempre ao seu dispor”, “subscrevo-me”, “com a melhor estima” etc., mas também encontram-se fórmulas que revelam certo grau de intimidade como “abraços do...”, “espero sua resposta por telephone”, “por aqui tudo bem”, entre outras.

Cartas em geral são o tipo de documento propício ao aparecimento de pronomes de tratamento e pronomes pessoais. Na correspondência entre Júlio Prestes e Washington Luís não seria diferente. No entanto, não é usada uma única forma para se dirigir ao interlocutor, mas sim formas de 2a pessoa que à época estavam em variação: tu e você, como se vê nos exemplos abaixo:

Carta de Júlio Prestes (16/02/1910) Carta de Júlio Prestes (18/03/1924)
Não me lembro se lhe | falei sobre a nomeação do Antonio | (…), tantos fo| ram os pedidos que lhe | fiz. (…) Sempre ao seu dispôr, subscre | vo-me seu Admirador e Amigo (...) Washington | Recebi a tua effige | em bronze. (…) como me acompanharás em espírito e no coração. (…) que | tão bem se ajusta á tua intre | pidez (…).

Ainda que a maioria dos documentos apresente predominantemente as formas relacionadas ao pronome você, não é de se estranhar o uso das formas de tu para a mesma pessoa. Segundo Lopes; Machado (2005, p. 49) "você;, em fins do século XIX e principalmente no português do Brasil, passa a concorrer com tu". Já nesse período o grau de intimidade podia ser expresso por ambos os pronomes. Nos documentos analisados aqui não é possível afirmar se seus autores já tinham incorporado essa variação ou se ainda conservavam certo distanciamento pelo uso do pronome você. O documento abaixo, provavelmente um rascunho de Washington Luís, datado de 24/05/1930, demonstra essa ambiguidade, pois toda ocorrência de você é corrigida para tu ao longo das sete páginas da carta[8]:

Localização Trecho da carta
Linhas 10-12 Depois de deixar-te tive | longa palestra com o Doutor | Aloysio de Castro, (...)
Linhas 41-45 Tem<s> você o dever de fazer essa || viagem, já iniciada e | combinada, deves pois, rea | izal-a, e o podes fazer com tranquilidade (...)
Linhas 55-64 Renovo, com toda a since | ridade e satisfação, o offere | cimento do Guanabara (…) para durante | essa auzencia onde os teus/ | entes queridos encontrarão to- | dos os carinhos de uma boa | amizade. Só aguardamos a tua | resolução.
Linhas 67-68 (…) bem | cedo para combinar o | que voce resolveres.
Linhas 69-71 Qualquer cousa, seja qual | for, que tua família | deseje (...)
Linhas 75-76 Assim deve<s> você previ | nil-a.

A possibilidade de conservadorismo está atrelado ao meio social de ambos os estadistas, à sua formação jurídica, mais conservadora em vários aspectos, dentre outros fatores. Por outras palavras, se partirmos da hipótese de que o uso mais frequente do pronome você nessas cartas implica certo grau de distanciamento, revelado pelo menos no texto, teríamos de tomar o cuidado de não afirmar categoricamente que eram de fato amigos. Mas se se levanta a hipótese de que o pronome você já imprimia maior grau de intimidade, tal como o pronome tu, a correção feita por Washington Luís no exemplo acima revela ainda mais a relação social entre ambos os estadistas. Isso fica mais claro ao compararmos esses documentos a de outros remetentes de Washington Luís do mesmo período. A título de ilustração, nas cartas de alguns de seus cunhados (KEWITZ, 2016 Org.), aparecem as formas dos dois pronomes concomitantemente, comprovando os achados de Lopes (2012) sobre a variação entre tu e você em fins do XIX e ao longo do século XX.

3. O diálogo entre amigos: caminhos de análise

Na seção anterior, dentre outras características, focalizaram-se elementos linguísticos no plano da frase e certas estruturas típicas de certo grau de intimidade. Nesta seção apresento o que chamo de "diálogo entre amigos" levando-se em conta a sequência temporal da correspondência trocada entre Júlio Prestes e Washington Luís ao longo do tempo.

Nos exemplos abaixo, é possível observar o mesmo tema – apresentação de um amigo – em cartas de ambos:

Carta de Washington Luís a Júlio Prestes, 19/11/1929 (AP JP) Resposta de Júlio Prestes a Washington Luís, 02/12/1929 (APESP, AP WL)
Meu caro Julio | Apresento o Doutor Altamiranto Re_| quião, redactor do Diario de Noticias, | jornal de que e' proprietario juntamente || com o meu velho <amigo> Hermano | Sant´Anna. Essas qualidades demons -| tram que a visita do Doutor Requião | é apenas a cortezia de um amigo que | vem da Bahia e está de passagem em | São Paulo | Do amigo affetuoso | 19-11-29 Washington Luis Meu Caro Washington | Saudades. | Recebi com prazer o Doutor Altami_| rando Requião, redactor do “Dia_ | rio de Noticias” – propriedade do | nosso velho amigo Hermano Sant’ | Anna, da Bahia.| Muito grato pela apresentação desse | valoroso difusor da causa na | cional, subscrevo-me | amigo affetuoso obrigado | Julio Prestes

Numa consulta não exaustiva ao acervo de Júlio Prestes no APESP, não foi possível encontrar a contraparte ou resposta de toda a correspondência trocada por ambos. Isso talvez se deva, de um lado, à possibilidade de essa resposta ter sido dada pessoalmente ou por telefone, eliminando assim a produção de uma carta ou telegrama. De outro lado, é preciso sempre contar com a possibilidade de que nem tudo o que foi produzido pelos dois estadistas foi de fato conservado em seu acervo. Por isso, qualquer análise é feita por aproximação e hipóteses.

Outro exemplo do diálogo entre eles está na carta (ou rascunho) de Washington Luís datada de 24//05/1930, apresentada na seção anterior. No texto de sete páginas com tema altamente fixo, Washington Luís recomendava veementemente que Júlio Prestes não levasse sua esposa durante a viagem que faria ao exterior após a eleição de 1930. Sua argumentação é reforçada pela consulta que Washington Luís fez a quatro importantes médicos da época, os doutores Martins Fontes e Paranhos, de São Paulo, e Miguel Couto e Aloysio de Castro, do Rio de Janeiro, como se vê abaixo:

Meu caro Julio | Depois de deixar-te tive | longa palestra com o Doutor | Aloysio de Castro, expondo o | meu ponto de vista sobre a | viagem aos Estados Unidos do Norte. | Elle foi conferenciar com o | Doutor Miguel Couto e a nota, | que os jornaes hoje dão, foi | por elles redigida. || O Doutor Aloysio de Castro affir_| mou-me cathegoricamente, co _| mo medico e como amigo, di – | zendo que é esse tambem o | parecer do Doutor Miguel Couto, | que no estado de saude | de Dona Alice nenhuma alte_| ração houve, mas que uma | travessia longa, (...) soffrendo ella || tão exageradamente de enjoo, | é arriscada e que elles | desaconselham absolutamente. | Foi essa a opinião que eu | ouvi do Doutor Martins Fontes e | do Doutor Paranhos quando ahi | estive. (...) [meus grifos]

No restante da carta, Washington Luís oferece sua ajuda para cuidar da esposa de Júlio Prestes, juntamente com sua família. No entanto, pelos telegramas abaixo, é possível depreender que a recomendação não foi seguida, tendo assim Júlio Prestes levado a esposa durante toda a viagem ao exterior.

Meu caro Julio | Depois de deixar-te tive | longa palestra com o Doutor | Aloysio de Castro, expondo o | meu ponto de vista sobre a | viagem aos Estados Unidos do Norte. | Elle foi conferenciar com o | Doutor Miguel Couto e a nota, | que os jornaes hoje dão, foi | por elles redigida. || O Doutor Aloysio de Castro affir_| mou-me cathegoricamente, co _| mo medico e como amigo, di – | zendo que é esse tambem o | parecer do Doutor Miguel Couto, | que no estado de saude | de Dona Alice nenhuma alte_| ração houve, mas que uma | travessia longa, (...) soffrendo ella || tão exageradamente de enjoo, | é arriscada e que elles | desaconselham absolutamente. | Foi essa a opinião que eu | ouvi do Doutor Martins Fontes e | do Doutor Paranhos quando ahi | estive. (...) [meus grifos]
(Telegrama enviado do navio Almirante Jaceguay, 30/05/1930) PRESIDENTE WASHINGTON LUIS | RIO | MUITO OBRIGADO PELAS BOAS NOTICIAS CONTINUAMOS| A FAZER BOA VIAGEM. ABRAÇOS = | JULIO PRESTES
(Telegrama enviado do navio Almirante Jaceguay, 10/06/1930) URGENTE PRESIDENTE WASHINGTON LUIS RIO | SATISFEITOS BOAS NOTICIAS STOP RECEBI TAMBEM TELEGRAMMA| ALICE MEDICOS CONCORDAM VIAGEM DELLA EUROPA CAPARCONA STOP | ESTAREI DE ACCORDO CASO NAO HAJA INVONVENIENTE STOP | (...) IDA EUROPA E DEMORA PROVAVEL MUITAS SAUDADES - JULIO -

Destacadas nos exemplos estão as formas que dão pistas de que Júlio Prestes e a esposa Dona Alice estavam sempre juntos durante a viagem. Outros poucos exemplos desse diálogo podem ser encontrados nos acervos de ambos os estadistas. No entanto, uma pesquisa mais aprofundada carece ainda de ser feita.

A ideia de tentar identificar o diálogo entre remetente e destinatário a partir de cartas, telegramas etc. tem como ponto de partida o trabalho do pesquisador em Linguística Histórica com base em documentos escritos. Mesmo que seja rico e diversificado o acervo de Washington Luís e de Júlio Prestes, deve-se sempre contar com eventuais lacunas nessa troca de correspondência, pois, como expus acima, já havia nesse período o telefone, além da possibilidade de o diálogo ter se dado pessoalmente, portanto, não registrado. A análise do diálogo na troca de correspondência possibilita a comparação, ainda que parcial, com diálogos em presença, face a face, com menor grau de planejamento do texto (JUBRAN, 2015).

Considerações finais

Neste artigo, propus analisar, ainda que de forma parcial e fragmentada, a sequência de correspondência trocada entre duas importantes figuras da política paulista e nacional. Boa parte dos documentos analisados, desde o nível da frase até o nível do texto como um todo, apresenta características prototípicas de textos mais controlados quanto à forma.

Mesmo que os documentos apresentem médio ou alto grau de planejamento do texto, preservação da face diante do destinatário, entre outras características, a abordagem aplicada permite entrever as motivações que fizeram gerar cada documento e sua sequência. Além disso, é possível depreender as relações sociais a partir de certas marcas, tais como os pronomes pessoais utilizados pelo remetente, as fórmulas fixas mais próximas da formalidade, como "com a melhor estima", e as expressões características de menor grau de formalidade, como "saudades", "por aqui tudo bem" etc. Nesse sentido, pode-se dizer que os documentos analisados em sua totalidade oscilam entre o que cunhamos como cartas pessoais e cartas de administração privada, também em função dos temas tratados em cada um, ora assuntos familiares e pessoais, ora políticos, econômicos etc.

Embora o linguista esteja mais preocupado com as formas constantes nos documentos, outros elementos externos a eles podem esclarecer aspectos igualmente relevantes do entorno social de quem os escreveu, como sua formação escolar/acadêmica, local de nascimento, entre outros. Nos acervos privados, em especial, deve o historiador de qualquer linha de pesquisa lembrar que a conservação de um documento pode orientar a própria compreensão de seu sentido (CAMARGO, 2011).

Notas

Referências