Artigo
Líderes e cidadãos: onde termina o homem público e tem início a vida privada nos documentos de arquivos de políticos?
Elisabete Marin Ribas[1]

Resumo:
A dicotomia público/privado no Brasil é algo que há muito tempo buscamos equacionar. Na era das redes sociais e da abertura do acesso às informações na Internet, como lidamos com essas questões diante dos arquivos privados depositados em espaços públicos? Como considerar a vida pessoal de personagens que ocuparam cargos públicos de extrema exposição? O presente texto busca elucidar tais questões a partir do fundo Caio Prado Jr.[2] , salvaguardado no Arquivo IEB - USP.

Palavras-chave: Arquivos Pessoais. Informação. Privacidade.

Abstract:
The public/private ambivalence in Brazil is an issue that for a longe time we try to balance. In the era of social networks and considering the dissemination of information on the internet, how do we deal with these questions in respect to private archives guarded in public spaces? How to assess the personal lives of persons who occuped public position of extreme exposition? This text tries to ilustrate these matters taking as example Caio Prado Jr.’s personal archives in Arquivo IEB – USP.

Keywords: Personal Archives. Information. Privacy.

Introdução

Longe de pretender esgotar um tema complexo como a dicotomia público / privado, tentaremos ilustrar, a partir de uma experiência prática, a aplicação de princípios arquivísticos e de uma abordagem contextual dos fundos pessoais como as melhores ferramentas disponíveis para os técnicos que trabalham com documentos privados de interesse público. Questões de ordem teórica e legal relacionadas ao dilema público/privado podem ser encontradas em autores como GARCIA (1998), COSTA (1998), MENESES (1998) e LAFFER (2005).

Arquivo IEB – USP e o Fundo Caio Prado Jr.

Criado em 1962, pelo então professor Sérgio Buarque de Holanda, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo é um centro de pesquisa interdisciplinar, detentor de precioso acervo dedicado ao estudo do Brasil. Esse acervo é dividido entre o ABC do IEB – Arquivo, Biblioteca e Coleção de Artes Visuais, respeitando-se a natureza de seus itens.

O Arquivo IEB-USP surgiu em 1968, integrado à Biblioteca. A partir de 1974, com a chegada de sucessivos arquivos pessoais, o crescimento do acervo motivou seu estabelecimento como setor independente. Com o objetivo de receber, organizar, preservar e divulgar seus documentos, visando oferecer fontes primárias para pesquisas das mais diversas áreas relacionadas aos estudos brasileiros, o Arquivo IEB atualmente reúne cerca de 500 mil documentos. Com destaque para seus já mencionados arquivos pessoais, o acervo é classificado a partir das características de seus conjuntos e apresenta-se dividido em Fundos, Coleções, Documentação Resultante de Pesquisa e Documentação Avulsa.

Dentre os 150 conjuntos documentais atualmente salvaguardados no Arquivo do IEB – USP, destacamos para o presente estudo o fundo Caio Prado Jr. O currículo desse intelectual é extenso e repleto de muitas funções exercidas, mas ele foi escolhido aqui por ser um dos titulares de fundos pessoais do Arquivo IEB-USP que exerceu um cargo político. Em 1945, ele foi eleito deputado estadual como suplente pelo PCB – Partido Comunista Brasileiro. Em 1948, foi eleito deputado da Assembleia Nacional Constituinte, embora tenha tido seu mandato cassado no mesmo ano.[3]

E se não soubéssemos absolutamente nada sobre Caio Pardo Jr.? Poderíamos, a partir de seus documentos pessoais, definir quem ele foi e como viveu? Se pudéssemos consultar o acervo na integralidade, talvez isso fosse possível. O que dificulta esse empreendimento é o fato de que o conteúdo do arquivo é estimado em cerca de 30 mil itens documentais. Tendo isso em mente, para nos aproximarmos de um acervo amplo como esse, é preciso uma estratégia. Aquela que conduziremos aqui é fazermos um exercício reflexivo, que buscará instigar no leitor algumas interpretações documentais, a partir de fotografias de Caio Prado Jr. retiradas de seu arquivo pessoal.

Documento 01

Documento 01

Documento 02

Documento 02

Documentos 03, 04 e 05

Documentos 03, 04 e 05 Documentos 03, 04 e 05 Documentos 03, 04 e 05

Documento 06

Documento 06

Documento 07

Documento 07

Documento 08

Documento 08

Se a partir das oito fotografias aqui selecionadas fôssemos elaborar uma narrativa da vida de Caio Prado Jr., poderíamos escrever o seguinte texto:

“Caio Prado Jr. era um exímio esportista. Praticava inclusive esportes de inverno numa época em que não existiam Olimpíadas especializadas (Documento 01). Por morar no Brasil, uma de suas grandes paixões era o futebol. Jogava desde criança (Documento 02). Sempre que podia, frequentava o estádio do Pacaembu (Documentos 03, 04 e 05). Por ser de uma família tradicional de São Paulo (Documento 06), não precisava trabalhar duro. Passava dias inteiros, tranquilamente, de pijama (Documento 07). Tinha um físico desenvolvido e posava como modelo para fotos de revistas da época (Documento 08).”

Para o leitor desatento, a breve história aqui poderia ser ilustrada com as fotografias do acervo de Caio Prado Jr.. Já para o arquivista que exerce seu trabalho com o rigor da descrição documental, a interpretação motivada pelas fotos teria ares de equívoco.

O arquivista que trabalha com arquivos pessoais sabe que, para além das séries, uma função exercida em vida pelo titular do acervo organizado é testemunhada por documentos de tipologias diversificadas, isto é, não só por fotografias, como aqui foi colocada. No trabalho de organização de fundos pessoais, ao ampliarmos um pouco mais o leque de documentos, começamos a ver a rede de relações que espelha a vida de seu titular. Com isso em mente, saberemos que algumas das imagens aqui selecionadas representam eventos que vão muito além do que as imagens sugerem ao primeiro olhar. A partir da mesma documentação, com a soma de novos documentos inseridos de forma contextualizada ao conjunto, a mesma história contada será um pouco diferente:

Caio Prado Jr. viveu de 1907 a 1990.

Documento 09

Documento 09

Documento 10

Documento 10

Documento 11

Documento 11

Documento 12

Documento 12

Durante sua infância, estudou no Chelmsford Hall. Eastbourne, Inglaterra, 1920.

Documento 02

Documento 02

Legenda: Caio à esquerda do professor no colégio Chelmsford Hall. Eastbourne, Inglaterra, 1920.

De fato era uma pessoa que apreciava esportes, praticando-os desde menino, gosto que se estendeu para a adolescência e vida adulta...

Documento 13

Documento 13

Legenda: Caderno de estudos, anotações e desenhos de Caio aos 16 anos. 1923.

... mas também durante a infância, começa a demonstrar interesse por escrever sobre e interpretar o meio em que estava inserido.

Documento 14

Documento 14

Legenda: Revista Agrícola, criada por Caio aos 11 anos, com informações sobre a indústria rural. Exemplar de 24/11/1918. A revista era destinada aos membros de sua família.

Aparentemente, caio Prado Jr. era oriundo de uma família abastada.

Documento 06

Documento 06

Legenda: Caio Prado Jr. encontra-se aos pés de sua mãe, Antonieta.

Apesar de supostamente provir de família de classe social elevada, Caio Prado Jr. filia-se ao PCB – Partido Comunista Brasileiro. Uma das consequências de suas posições políticas é a sua prisão em 1936. Na cadeia, esteve ao lado de figuras como Barão de Itararé. Escreveu diários durante sua estadia no cárcere.

Documentos 07 e 15

Documento 07 Documento 15

Legenda: Caio Prado Jr. posando para foto individual e Caio Prado Jr. posando com outros presos políticos, em 12/9/1936.

Documento 16

Documento 16

Legenda: Prontuário de Caio Prado Jr. no Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), durante sua prisão entre 1935 e 1937.

Por informação de um de seus diários, sabemos agora que as fotos do Estádio do Pacaembu, em verdade, mostram, mais do que uma partida de futebol de domingo, o Comício de Luiz Carlos Prestes, ocorrido em São Paulo, em 15 de julho de 1945.

Documentos 03, 04 e 05

Documento 03

Legenda: Pessoas com faixas na mão caminhando em volta do campo do Pacaembu.

Documento 04

Legenda: Luiz Carlos Prestes em um palanque, com pessoas ao seu redor e câmeras. A foto foi tirada a partir de um ângulo de baixo para cima.

Documento 05

Legenda: Concha acústica do estádio do Pacaembu, pessoas na arquibancada e uma faixa no campo com os dizeres "O POVO QUER ELEIÇÕES".

Documento 17

Documento 17

Legenda: Página do Diário Político número 5 – Anotações sobre o dia 15 e panfleto.

Ao sair da prisão, Caio Prado continuou participando de atividades políticas e acreditava no pacifismo, opondo-se à luta armada e entregando todos os proventos de seus cargos políticos ao PCB.

É considerado um dos maiores intérpretes do Brasil por ter escrito livros como Formação do Brasil Contemporâneo. Durante a sua vida, viajou o país registrando nosso povo, costumes, construções. Desenvolveu assim o gosto pela fotografia, realizando vários estudos sobre imagens e movimentos. E além de tudo isso, tinha bom humor.”

Documento 18

Documento 18

Com exceção da brincadeirinha final em relação à imagem número 18, a seleção de documentos aqui apresentada neste segundo momento mostra um histórico do mesmo Caio Prado Jr. bem diferente da história apresentada inicialmente. Os documentos de arquivo são peças de um quebra-cabeça que oferecem indícios. Eles devem ser consultados, pesquisados e interpretados como testemunhos pontuais. Mesmo o resultado da leitura dos 30 mil documentos do acervo não nos permitiria traçar uma narrativa única e linear da trajetória de Caio Prado Jr. Como nos lembra Heloísa L. Bellotto: “o documento reflete uma realidade; não é a realidade concreta. É um discurso sobre a realidade”. (BELLOTTO: 2006, p. 264)

O que afinal apreendemos desse percurso: a difícil separação entre documentos de ordem privada e aqueles de natureza pública num arquivo pessoal, mesmo de uma figura de alta projeção social e intelectual; a armadilha de selecionarmos enviezadamente subconjuntos de um acervo documental, que podem dar origem a interpretações as mais díspares ou disparatadas. Nesse processo de minoração de erros o papel do arquivista é fundamental ao realizar descrição documentais acuradas e propor classificações claras e significativas.

Notas

Referências Bibliográficas