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Arquivo Público do Estado de São Paulo recebe acervo de censura teatral
05/12/2018 - Por APESP/Comunicação

Mais de seis mil processos de censura prévia de peças teatrais, a maior parte do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, registradas entre 1926 e 1970, já podem ser consultados no Arquivo Público do Estado (APESP). Este conjunto documental, que ficou conhecido como Arquivo Miroel Silveira, foi recolhido da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) para o Arquivo Público em outubro. Os processos, agora reintegrados ao Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo, serão incorporados ao fundo Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, recondicionados, digitalizados e descritos arquivisticamente. Os documentos já podem ser consultados presencialmente no APESP.

Dessa forma, ampliam-se as possibilidades de pesquisas desses processos de peças teatrais, no contexto da secretaria em que foram produzidos e tramitados. Também se torna possível o cruzamento de informações com outros fundos documentais importantes do APESP, como o de prontuários e fichas do Departamento de Ordem Pública e Social (DEOPS), com documentos do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP), ou ainda, àqueles relativos a atividade teatral, como os documentos de Maria José de Carvalho e do Centro de Estudos e Memória do Teatro Paulista.

Enquanto esteve na Universidade de São Paulo o acervo foi batizado com o nome de Miroel Silveira, professor do Departamento de Artes Cênicas e pesquisador deste acervo teatral, que teria levado os documentos do Departamento de Diversões Públicas para a USP, temendo o desaparecimento deles no processo de abertura política do país, na década de 1980. Há cerca de um ano a ECA-USP está em contato com o Arquivo Público, para que o acervo pudesse vir para o APESP. Mas, para que o acesso aos documentos seja facilitado aos pesquisadores da USP, de outras instituições e ao público em geral, também está prevista a digitalização desse acervo.

Compõem o conjunto recém-chegado ao Arquivo Público 6.140 processos - somando aproximadamente 40,32 metros lineares de documentos - distribuídos em 288 caixas. O conjunto é composto por processos de peças populares, peças infantis, de teatro amador, entre outras, mas chamam atenção algumas muito conhecidas como "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri, censurada em 1958; "Os pequenos burgueses, de Maximo Gorki e traduzida por José Celso Martinez e Fernando Peixoto, censurada em 1963; e uma cópia do processo de censura de "Roda Viva", de autoria de Chico Buarque de Holanda, com data de censura de 1968.

Cada processo tem uma característica peculiar, mas, predominam as palavras ou trechos censurados, como é o caso de "Pertinho do Céu", peça de autoria de Mário Lago e José Wanderley, que teve a palavra "amante" riscada e carimbada, no ano de 1943. A professora Cristina Costa, maior especialista nesses processos, em seu livro "Censura em Cena: teatro e censura no Brasil", cita que a palavra "amante%" foi a mais censurada de todas.

"Senhora dos Afogados", peça de Nelson Rodrigues, foi proibida em 1953, proibição reafirmada em 1957. O autor teve mais outras 12 peças censuradas entre os anos de 1949 e 1968. Outro exemplo de peça teatral proibida, agora em 1965, foi "Reportagem de um tempo mau" de Plínio Marcos.

Para realizar a consulta a este acervo os interessados devem vir ao salão de consultas do APESP, no 1º andar do prédio principal, na Rua Voluntários da Pátria, 596, em Santana (ao lado do metrô Portuguesa-Tietê). O setor funciona de 2ª a 6ª feira, exceto feriados, das 9h00 às 17h00, com pedido de documentos até às 16h00. Mais informações podem ser obtidas pelo email: consulta@arquivoestado.sp.gov.br


O Rei da Vela, escrita por Oswald de Andrade, censurada em 5 de dezembro de 1967. (caixa 272 - localização DDP6078



Cópia do processo de Roda Viva, escrita por Francisco Buarque de Holanda, censura em 2 de julho de 1968. (caixa 275 - localização DDP6116)