Artigo
ACERVOS TEATRAIS PAULISTANOS: Presente e futuro em jogo
Elizabeth R. Azevedo[1]

Resumo:
O artigo pretende apresentar um levantamento panorâmico e, ainda que brevemente, uma avaliação da existência, dimensões e limitações dos acervos teatrais existentes na cidade de São Paulo. Os conjuntos foram classificados a partir do tipo de organismo mantenedor ao qual está ligado como, por exemplo, órgão público federal, instituição privada, indivíduos etc. A partir desse levantamento, argumentamos a favor da necessidade de existência de um Centro de Documentação Teatral na cidade de São Paulo e apresentamos ações que vêm sendo tomadas para sua criação na Universidade de São Paulo.

Palavras-chave: São Paulo. Arquivos. Teatro. Centro de Documentação Teatral. Universidade de São Paulo (USP).

Abstract:
The article intends to present a panoramic survey and, although briefly, an evaluation of the existence, dimensions and limitations of the theatrical collections existing in the city of. The sets were classified according to the type of supporting organism to which they are connected, for example, federal public agency, private institution, individuals etc. From this survey, we argue in favor of the existence of a Center of Documentation Theater in the city of São Paulo and present actions that have been taken for its creation in the University of São Paulo.

Keywords: Sao Paulo. Archives. Theatre. Theatrical Documentation Center. University of São Paulo (USP).

Por que nossa memória teatral é tão esquecida? Por que as publicações sobre nossa trajetória teatral são tão penosas de serem feitas? .... Por que será que é tão difícil voltar o pensamento para o processo, para o estudo, para a pesquisa, para o experimento e para a necessidade de registrar nossa caminhada? O que podemos aprender do passado que possa ter influência sobre os trabalhos do futuro?

J.C. Serroni
Arquiteto e cenógrafo

Há pouco mais de uma década, a preservação do patrimônio cultural e da memória coletiva tem sido objeto de renovados debates, pesquisas e iniciativas. Amparados pelas inovações tecnológicas surgidas nesse período, e que ampliaram de maneira formidável as possibilidades de organização e circulação da informação, a memória individual e a memória coletiva passaram a fazer parte das preocupações mais correntes da coletividade. Países, municipalidades, instituições, famílias ou qualquer outro agrupamento humano passaram a poder contar, e querer, que suas histórias fossem não só registradas, mas que a documentação pudesse ser posta à disposição de um possível público interessado – seja por motivos afetivos, seja por interesse científico.

O valor que se passou a atribuir aos mais diversificados tipos de documentação (consequência da própria ampliação da noção de fonte histórica) transformou a Informação em um dos bens mais valorizados da contemporaneidade.

De modo geral, o patrimônio artístico compõe-se não só das obras em si, mas também de toda a documentação que revela sua produção e recepção. São informações sobre autoria, trajetória e técnicas empregadas, circulação e avaliação. Se se trata de um bem com consistência material é possível preservá-lo para conhecimento, fruição e crítica de épocas posteriores à sua origem. No entanto, há casos nos quais a obra em si dissipa-se com sua conclusão, como o teatro.

Uma apresentação teatral[2], mesmo se tratando de um só texto, representado por um mesmo grupo, em um mesmo espaço cênico, nunca será igual à outra. Nunca será também passível de repetição ou reprodução integral. O que acontece durante uma apresentação teatral acontece exclusivamente naquele momento, naquele espaço, com aquelas pessoas. Nunca mais a equação será a mesma. É uma obra irreconstituível. Esse fenômeno torna o teatro a mais efêmera das artes. E, portanto, de mais difícil preservação. Qualquer ação de preservação da memória teatral deve ter isso em conta.

Mesmo para aqueles que não veem o teatro como forma de arte efêmera ou passageira, mas sim que se “dispersa” no tempo e no espaço, tal dispersão acarreta um árduo trabalho para o historiador, na medida em que ele deve recorrer a uma variada gama de documentos que impõem dificuldades diferenciadas para serem lidos. (...) Diante da dispersão, a tarefa do historiador é, através dos documentos existentes, recompor a cena, colocando-a novamente diante dos olhos dos leitores.[3]

Além disso, o teatro tem como outra característica constitutiva o fato de fundir diferentes expressões artísticas, decompostas em seus elementos. O teatro combina, em diferentes intensidades, os elementos dessas expressões. O som, a luz, as cores, o movimento, a dinâmica do tempo e do espaço tudo isso faz parte intrínseca do espetáculo. Por consequência, também reúne uma coletividade de profissionais de variadas áreas e funções, desde as técnicas até as artísticas. Assim, o teatro é visto como uma arte que abrange duas categorias de patrimônio: o material e o imaterial[4].

O cerne do espetáculo teatral enquadra-se como forma de expressão do patrimônio imaterial. Os elementos constitutivos de um patrimônio teatral material são os bens que integram fisicamente o espetáculo e podem ser conservados em si. O edifício teatral é um exemplo; o figurino usado numa encenação é outro. Contudo, é preciso ter sempre em mente que o patrimônio material e o imaterial estão organicamente ligados e que essa relação é essencial em uma análise da realização artística. Daí então a necessidade de se preservar o conjunto desse patrimônio. É um conjunto composto pelos mais diversificados tipos de documentos, desde os mais complexos até os mais simples: livros, revistas, recortes, fotos, gravações de imagem e de som, diários, entrevistas, material publicitário, projetos de figurinos e cenários, os próprios figurinos e cenários, registros de companhias, programas de peças, registros administrativos dos teatros, borderôs e muitos outros.

A complexidade implícita nessa tarefa dificulta enormemente sua realização. Apenas com muito empenho é possível recolher, identificar, tratar, disponibilizar e relacionar todos os inúmeros elementos do espetáculo. Mesmo assim, nunca se chegará a uma reconstituição efetiva e definitiva do que foi uma encenação. O que sempre teremos serão indícios e traços capazes de nos permitir uma parcial aproximação com o fenômeno[5]. Dada a extrema variedade tipológica da documentação, um centro de documentação teatral se abre para o acolhimento de toda ela, sem privilegiar nenhuma, como seria o caso de uma biblioteca ou um arquivo.

Os primeiros conjuntos documentais recolhidos sobre o teatro surgiram no século XVIII na Europa e se constituíam em coleções de textos dramáticos e tratados de teoria em literatura dramática. Aos poucos, outros elementos foram sendo preservados por atores, companhias e teatros. Eram coleções de figurinos e cenários, álbuns de artistas, croquis ou conjuntos que reuniam material por algum critério temático: ópera, marionetes, dança.

Na verdade, a tendência atual da preservação da documentação é de que as especificidades dos documentos se diluam pouco a pouco na medida do possível[6]. Não se pode negar a importância da presença de uma boa biblioteca em um museu. Mas é mais difícil encontrar uma biblioteca que preserve objetos. Desse modo, um centro de documentação teatral é a forma ideal de trabalhar com a preservação da memória teatral. Abrigando todo elemento afeito ao mundo da cena será possível deixar à disposição dos pesquisadores – além de permitir as pesquisas do próprio centro – os possíveis traços que permitem recompor e analisar o fenômeno teatral.

Um centro de documentação define-se como um polo colecionador especializado em determinada área e que abriga e integra documentação bibliográfica, arquivística e museológica, privilegiando, em geral a organização arquivística[7]. Procura atuar como centro de referência na área, divulgar seu acervo e promover pesquisa.

Sendo assim, e tendo em vista que a arte teatral se consubstancia num fenômeno efêmero e único - a encenação teatral - impossível de ser materializado ou repetido, o projeto do CDT (Centro de Documentação Teatral da ECA/USP[8]) adota uma estratégia que refaz o princípio mesmo do teatro, qual seja: a conjunção de diferentes elementos que se somam-se, completam-se e se integram.

Mas, seria um centro de documentação teatral necessário à cidade?

Centro de Documentação Teatral (CDT) da ECA/USP: Laboratório de Informação e Memória do CAC e Núcleo de Traje em Cena

A origem do teatro paulistano confunde-se com a criação da própria cidade. O auto da pregação universal, escrito por José de Anchieta, teve o feliz destino de preservar-se nos arquivos papais para que, séculos mais tarde, chegássemos a conhecê-lo. Nele, religião e teatro congregaram-se naqueles primeiros anos da vida colônia lembrando, de certo modo, as raízes mais antigas do teatro ocidental.

Da mesma forma que a memória do teatro anchietano pôde ser recuperada, o restante da história do teatro paulistano está à espera de um esforço similar. Impõe-se a tarefa de se conhecer a trajetória do teatro em São Paulo, sobretudo no período no qual a cidade passou de um distante e modorrento “burgo de estudantes” à metrópole vibrante, centro econômico do país.

As duas primeiras décadas do século XX, por exemplo, foi um momento especial nesse percurso. O novo século trouxe para São Paulo a certeza de mudanças. Afinal, já havia algum tempo que o estado de São Paulo vinha enriquecendo com o café e sua capital refletia esse dinamismo através de uma efervescência econômica, social e cultural inéditas. Depois de séculos de marasmo e pasmaceira, a cidade deixava de ser uma vila perdida no sertão brasileiro para tornar-se um polo cosmopolita, repleta de sotaques vindos dos mais distantes países do mundo. A malha urbana ultrapassava seus antigos limites, novos bairros surgiam, os equipamentos urbanos se aperfeiçoavam. A vibração que emanava de tanta gente cheia de energia, disposta a transformar seu destino, impregnava tudo. Abria-se o mundo ao empreendedorismo dos mais arrojados. Todo tipo de iniciativa comercial, industrial ou cultural tinha seu lugar, desde as mais populares até aquelas direcionadas a uma elite segura de si e desejosa de deixar sua marca na paisagem da cidade. Não eram apenas teatros populares, acanhados e baratos que despontavam pela cidade. Eram também grandes empreendimentos, muitas vezes bancados por membros das mais tradicionais famílias paulistas, já que a praticamente inexistente política cultural por parte do Estado (desde o estabelecimento da elite liberal republicana no poder) deixava as iniciativas artísticas a cargo do setor privado, e no caso do teatro, dependente, exclusivamente, da bilheteria.

Quanto aos gêneros artísticos, o início do século XX foi um momento de indefinições e rearranjos. O aparecimento do cinema como um novo tipo de divertimento, mas também uma nova forma de arte, eminentemente moderna, criou inicialmente uma simbiose interessante com o teatro, mas aos poucos acabou se transformando no algoz do palco, chegando a ocupar praticamente sozinho, no final dos anos 20, o cenário artístico da cidade. Foi um golpe quase mortal para a arte teatral que teve que se reerguer a partir de outras bases, o que finalmente nos anos 40 levou à modernização da cena nacional, cujo marco é o grupo paulista do Teatro Brasileiro de Comédias – o TBC.

Muito embora a importância do teatro na corte imperial ou na capital federal não possa, nem deva, ser negada, a história do teatro brasileiro se fez com a participação, ainda que modesta, dos teatros de província, dos amadores e das experiências que não vingaram.

Assim, a história do teatro paulista, e paulistano, tem estado há muito tempo relegada ao interesse despertado pelo advento do TBC e seus desdobramentos. Contudo, há muito ainda a ser investigado antes e depois disso[9]. A história do teatro paulistano necessita ser reconstituída nas suas mais diversas dimensões: dramaturgia, dramaturgos, companhias e grupos, intérpretes, crítica e críticos, espaços cênicos, indumentária, cenografia, iconografia, música, elementos espetaculares, público, legislação, censura. A tarefa pode começar a partir do início dessa história, que é tido, aliás, como o início da própria história do teatro brasileiro, com o padre José de Anchieta, passando pelos séculos seguintes, de raríssimas encenações conhecidas, e debruçar-se, principalmente a partir das manifestações teatrais do século XIX, quando São Paulo começou a delinear seus contornos contemporâneos, passando de vila à cidade e, depois, à metrópole.

A limitação, inicial, dos estudos ao teatro paulistano explica-se pelo fato de que ainda está para ser explorada a enorme documentação teatral referente apenas à capital paulista. A ampliação dos limites espaciais da pesquisa deverá ser feita aos poucos, em contato com outros pesquisadores atuantes no estado de São Paulo, através de convênios de pesquisa e colaboração que deverão ser estabelecidos futuramente.

A criação do CDT foi um primeiro passo nessa direção. Ele já vem atuando nessa direção dentro de suas possibilidades. Ainda que com recursos financeiros e humanos limitados, vem realizando organização e pesquisas atendendo pesquisadores externos e atuando como centro de referência da área.

Apoiado e ampliado, pretende chamar a si a responsabilidade de ser um centro de pesquisa, documentação e referência maior e mais produtivo. Podendo contar com o apoio, segurança e estabilidade da maior universidade da América Latina, buscando integrar diversas unidades da USP – o que já tem sido feito de maneira informal - e formado por profissionais especializados e interessados na área teatral e de documentação, certamente poderá se consolidar como um centro de excelência nacional no trato da documentação e da pesquisa teatral.

A existência de um centro de documentação e referência se justifica pela inegável e óbvia importância da arte teatral como uma das mais genuínas e antigas formas de expressão cultural humana e pela urgência e necessidade específica de se preservar a história do teatro paulista.

É notório que São Paulo sempre contou com pouquíssimos órgãos que se dedicassem à pesquisa e à conservação da memória teatral em geral. Até hoje não há uma só instituição que se debruce exclusivamente sobre o registro e a pesquisa teatral nas suas múltiplas facetas e que procure dar conta de toda a complexidade e diversidade de um acervo teatral, seja em termos teóricos, elaborando uma tipologia documental consistente por exemplo, seja em termos práticos, conservando e disponibilizando conjuntos documentais que não encontram acolhida em outras instituições.

A tipologia dos acervos existentes se compõe de: bibliotecas (maioria), museus de um teatro em particular, museus de um artista/intelectual, centro de documentação público voltado às artes em geral, arquivos privados de pessoas, grupos, companhias ou teatros e arquivos públicos.

É possível ainda identificar as instituições custodiadoras quanto as suas origens administrativo/financeiras que, ainda que não exclusivamente, dedicam-se à preservação de acervos teatrais na cidade entre órgãos públicos (federais, estaduais e municipais), instituições privadas de caráter cultural, de associações de classe, de teatros particulares, organizações sociais, de ensino, de grupos e acervos privados pessoais.

Gostaríamos aqui de fazer um rápido mapeamento dessas instituições e conjuntos documentais com o objetivo de demonstrar que o projeto de Centro de Documentação Teatral em implementação na ECA/USP é uma importante contribuição para a preservação dos acervos teatrais paulistas.

Órgão Público: Federal

Museu Lasar Segall - Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM - Ministério da Cultura

Uma instituição que sempre se dedicou aos temas artísticos. A Biblioteca Jenny Klabin Segall do Museu Lasar Segall é uma das mais completas na área. Destaque-se, por exemplo, a acervo do crítico e teórico Anatol Rosenfeld, a documentação do Teatro e Studio São Pedro entre 1968 e 1975 (de Beatriz e Maurício Segall), o acervo doado, há alguns anos, da Escola de Arte Dramática, além do excelente trabalho feito de digitalização de coleções de “teatro popular”[10] e do vocabulário controlado das artes do espetáculo[11]. Até hoje, nos parece que a biblioteca é vista como referência para doações de acervos teatrais. No entanto, a biblioteca não se dedica a abrigar outra documentação além da bibliográfica, como figurinos por exemplo ou outros objetos.

Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) / Fundação Nacional de Artes (Funarte)/ Ministério da Cultura (MinC)

Desapropriado pela Funarte em 2008, foi tombado pelo Condephaat (órgão estadual) e Compresp (municipal), mas encontra-se fechado no momento. Durante algum tempo circulou a informação de que ele seria transformado em um Museu de Teatro, mas o projeto não foi adiante.

Teatro de Arena Eugênio Kusnet - Fundação Nacional de Artes – Ministério da Cultura (Funarte/MinC)

Sede do histórico grupo do Teatro de Arena criado nos anos 50, o edifício passou para a Prefeitura na década de 1970 e atualmente pertence à União. Conserva íntegro o formato da relação palco/plateia que lhe deu nome, assim como a maior parte de sua aparência. Mais recentemente, tem recebido projetos de “ocupação” promovidos pela Fundação e levados à cabo por grupos da cidade.

Parte importante do acervo referente à companhia encontra-se no Centro Cultural São Paulo – Arquivo Multimeios. Do restante dos documentos não há notícia. Não há um site ou outra forma de pesquisa ou informações na página oficial do espaço.

Órgão Público: Estadual

Arquivo Público do Estado de São Paulo - Secretaria de Governo

Em 2002, foi criado dentro do Arquivo Público do Estado de São Paulo o chamado Centro de Estudos e Memória do Teatro Paulista (CEMTP)[12], dirigido pelo ator Emílio Fontana. O Centro surgiu em um momento em que o Arquivo desenvolvia atividades que ultrapassa [sic] os limites de sua função arquivística e tinha como objetivo reunir a documentação do teatro paulista abrangendo todos os períodos possíveis e iniciar a organização de mostras dos períodos mais marcantes da história do teatro bandeirante, bem como eventos teatrais revivendo esses períodos. Efetivamente, criou-se um local onde se pudesse guardar, organizar e divulgar o patrimônio cultural produzido pelo teatro paulista.

O centro foi pensado a partir da doação de mais de 4.000 itens da professora e atriz, Maria José de Carvalho[13], originalmente ao Departamento de Museus e Arquivos (DEMA) da Secretaria da Cultura ao qual o Arquivo pertencia então.

Um informativo do Centro[14] lista doações feitas por: Maria Della Costa, Maria Alice Vergueiro, Ademar Guerra, Cleide Campanini, bem como “acervos avulsos” com cartazes, programas etc.

O mesmo documento anunciava que grande parte desses acervos já se encontrava disponível para consulta e que o Centro havia realizado dois espetáculos teatrais, um adulto e outro infantil, além da organização de uma exposição circulante sobre a atriz Maria Della Costa, com parceria da Companhia do Metropolitano de São Paulo.

Em novo boletim informativo[15], o CEMTP informava que continuava recolhendo documentação através de uma campanha por mala direta com a classe teatral. Dessa forma fora-lhe o acervo de Eva Todor, e não chegou a se concretizar.

Além disso, dava conta de que pelo decreto 48.328, artigo 7, de dezembro de 2003, criara um programa de resgate da História do Teatro Negro em São Paulo, como parte integrante do projeto de Política de Ações Afirmativas para Afrodescendentes. Para tanto, constituiu uma comissão que promoveu um levantamento das atividades teatrais dos afrodescendentes em São Paulo e a realização de leitura teatralizada em homenagem ao dia da consciência negra, da peça do diretor, ator e dramaturgo negro Abdias do Nascimento, Teatro do negro para sempre, com direção de Fontana em 2006 no Teatro Sérgio Cardoso. Havia planos de dar continuidade às atividades, com palestras sobre Solano Trindade e montagem de outros espetáculos, mas não há registro de que isso tenha sido realizado.

Conjunto de documentos, ainda que não muito extenso, mas relevante, permaneceu no CEMTP até 2008 quando, em virtude de uma reformulação das estratégias do Arquivo, que passou, à época, para a jurisdição da Casa Civil, decidiu-se desativar o “centro de teatro” ali existente. A documentação foi conservada, mas ainda não foi organizada e disponibilizada, sendo no momento objeto de revisão. Compõe-se de cerca de 200 caixas, metade das quais com livros. De resto é bastante diversificado como programas de espetáculos, catálogos, fotografias, álbuns de recortes de jornais, partituras entre outros.

Na página de busca do novo site da instituição, campo de “busca avançada” – “registro de autoridades”, os nomes de Maria José de Carvalho ou Maria Della Costa não conduzem a nenhum resultado. Já no antigo site, ainda disponível, Maria José de Carvalho aparece como titular de fundo[16]. Encontram-se documentos da vida pessoal e profissional da artista. São cartas, memorandos, contratos, apostilas de cursos, recortes de jornal, receitas culinárias entre vários outros tipos documentais.

O “assunto” “teatro” remete aos fundos dos Diários Associados, (há inúmeras imagens no acervo iconográfico dos jornais Diário da Noite de São Paulo e Diário de São Paulo). Há imagens também no fundo do Jornal Última Hora e do jornal Movimento. Além disso, remete ao fundo da Secretaria de Governo da Capitania de São Paulo (referentes aos teatros públicos Casa da Ópera e do Teatro São José, existentes no século XIX na capital paulista).

Por outro lado, o Arquivo Público recebeu o importante acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo que contém raras publicações da área (acessíveis a partir do processo de digitalização do acervo de revistas do Arquivo) e o fundo de documentação do dramaturgo, diretor e professor, criador da Escola de Arte Dramática, Alfredo Mesquita, já tratado e descrito em instrumento de pesquisa em papel na sala de consulta[17] .

O Arquivo informa ainda que os documentos produzidos pela administração pública como os da Secretaria do Interior, Secretaria da Educação e Secretaria da Cultura (no Arquivo Intermediário) podem eventualmente conter informações relevantes sobre regulação de atividades artísticas, financiamento, construção de equipamentos culturais etc. Do mesmo modo, censura e repressão política a atividades teatrais e artistas podem ser pesquisados em documentos da Secretaria de Segurança, notadamente os do DEOPS.

Lembremos ainda os fundos da polícia, durante muito tempo encarregada de prover alvará de funcionamento para as diversões na cidade.

Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP)

Sendo um dos institutos especializados da USP, o IEB é formado pelo seu arquivo, biblioteca e coleção de artes e possui um dos mais valiosos acervos artísticos, literários e históricos da universidade e do Brasil. Na área teatral, além das atividades parciais de diversos dos nomes presentes no acervo, como Mário Andrade e Marcelo Tupynambá, destaca-se um fundo voltado, em sua maior parte, para o teatro: o da atriz Lélia Abramo. Consultas aos dados documentais podem ser feitas pelo site do Instituto e para o acesso ao conteúdo do acervo, há o atendimento presencial[18] .

Arquivo Miroel Silveira – USP/ECA (Autarquia)

Na própria Universidade de São Paulo, o Arquivo Miroel Silveira [19], criado a partir de um projeto temático financiado pela FAPESP, preserva cerca de seis mil originais de peças teatrais submetidas à vistoria do Departamento de Polícia para censura prévia, entre 1925 a 1972, está, no momento, sob a guarda da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes uma vez que, originalmente, pertence ao Arquivo Público do Estado de São Paulo. O grupo de pesquisa criado em torno desse acervo tem trabalhado basicamente com as questões ligadas à análise da censura efetuada sobre as obras. É inegável a importância do acervo e do trabalho que foi executado, desaguando inclusive em publicações diversas.

Em 2017 os documentos deverão ser recolhidos ao APESP, no fundo da Secretaria de Segurança Pública, digitalizados e integrados ao banco de dados da ECA. Como desdobramento do projeto original o grupo de pesquisadores da USP criou Observatório de Comunicação, OBCOM, ampliando o foco das investigações para além das questões teatrais. Ainda assim, manteve as informações coligidas anteriormente disponíveis .

Como desdobramento do projeto original o grupo de pesquisadores da USP criou Observatório de Comunicação, OBCOM, ampliando o foco das investigações para além das questões teatrais. Ainda assim, manteve as informações coligidas anteriormente disponíveis [20].

Teatro da USP (TUSP)

O TUSP, situado na rua Maria Antônia, 294, bairro da Consolação, foi criado em 1955 e teve como primeiro diretor o ator do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), Ruy Affonso Machado. Na década de 1960, foi dirigido pelo cenógrafo e professor da FAU/USP Flávio Império, mas desapareceu nos anos 70 até ser “recriado” oficialmente em 26 de maio de 1976, por meio da Resolução 943, do reitor Orlando Marques de Paiva. Nas décadas seguintes, o teatro ampliou suas atividades, incluindo mostras, palestras, festivais, e atingindo outros campi da universidade.

O acervo dos espetáculos mais recentes[21] encontra-se hoje organizado e identificado pelo título. Há cartazes, filipetas, convites, catálogos. São organizados álbuns com um exemplar de cada tipo documental, além de haver uma quantidade maior (cerca de 20 a 25 exemplares acondicionados em caixas). Conservam-se também Dvds, Cds, e VHS, álbuns de fotos (a maioria do “antigo” Grupo TUSP) e cd e dvds com as novas fotos digitais. Não há um trabalho sistemático de identificação de fotos.

O TUSP produz ainda relatórios de atividade e clippings mantidos em dropbox para uso dos funcionários. Esse material não pode ser acessado diretamente pelo pesquisador, mas o blog do teatro disponibiliza o material postado para divulgação a partir dos anos 2012.

Teatro Laboratório do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP (CAC/ECAUSP) e da Escola de Arte Dramática da Escola de Comunicações e Artes da USP (CAC/EAD/USP)

O Teatro Laboratório da ECA foi inaugurado em 1995 e serve às duas escolas que dividem o espaço das Artes Cênicas da ECA (CAC e EAD)[22] .

O LIM CAC (Laboratório de Informação e Memória do CAC) foi criado para preservar a memória do Departamento de Artes Cênicas (ver adiante), na qual se incluem as atividades desenvolvidas no Teatro Laboratório. Já a EAD mantém uma coleção de fotos e programas em sua secretaria.

CAC e EAD compartilham o uso do guarda-roupa, destinado às atividades pedagógicas. No entanto, com o tempo, diversas peças tornaram-se muito frágeis para uso em cena. Outras, por sua origem, história ou raridade passaram a ser consideradas como uma reserva a ser destinada a estudos. Um conjunto importante, por exemplo, é o do Grupo de Teatro Experimental, GTE, criado nos anos 1940 e dirigido por aquele que viria a ser o fundador da EAD e seu diretor durante anos, até a incorporação da escola pela USP, Alfredo Mesquita.

Ambas as pesquisas foram orientadas pelo Prof. Dr. Fausto Viana, que junto com a autora, escreveu o Breve Manual de Conservação de Trajes Teatrais, metodologia base do tratamento sofrido pelas peças do acervo.

Embora sua importância seja inegável e tenha havido um trabalho de identificação (com fotografia de cada peça), higienização e acondicionamento adequado, o acervo “histórico” não está disponível para consulta em um sistema de base de dados, o que dificulta evidentemente futuras pesquisas e a própria conservação.

Note-se que esses figurinos não integram o acervo do Núcleo de Traje em Cena, que juntamente como o LIM CAC compõem o Centro de Documentação Teatral da ECA.

Casa Guilherme de Almeida - Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo[23]

O museu-casa do escritor Guilherme de Almeida é administrado em parceria com uma organização social de cultura. Possui acervo bibliográfico, iconográfico e hemeroteca, no qual se podem encontrar documentos sobre suas atividades de autor dramático, parceiro inclusive de Oswald de Andrade nas primeiras décadas do século XX. No site da instituição encontra-se o guia do acervo[24], mas não há como pesquisar online.

Vila Itororó - Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo[25]

Antiga residência de Francisco de Castro, a Vila Itororó foi construída no começo do século XX, com material retirado da demolição do antigo Teatro São José, localizado diante do Theatro Municipal no Vale do Anhangabaú. Desapropriada e tombada pelo governo do Estado e pela Prefeitura em 2006, passa por restauração e requalificação desde 2013. Noticiou-se, anos atrás, que uma parte do espaço seria dedicada à criação de um Museu do Teatro, sem, no entanto, que se definisse qual acervo seria preservado. A ideia não foi retomada.

Órgão Público: Municipal

Arquivo Histórico Municipal – Secretaria Municipal de Cultura

Conhecido até pouco tempo atrás como Arquivo Histórico Washington Luis, o arquivo público da cidade de São Paulo, foi rebatizado recentemente, eliminando-se o nome do antigo prefeito (1914-1919), governador e presidente eleito Washington Luis Pereira de Souza (1869-1957).

Como arquivo governamental guarda a documentação da cidade de São Paulo desde o século XVI até a primeira metade do século XX.

Para a história do teatro em São Paulo preserva valioso acervo da câmara municipal (Colônia e Império) e sobre os edifícios teatrais (série Obras Particulares), com plantas, alvarás, laudos e despachos os mais variados, a partir do período republicano. Mapas e plantas da cidade contendo a localização das casas de espetáculos também podem ser encontrados.

Por se confundir com a atividade cinematográfica a partir do fim do século XIX e início do XX é de grande interesse para a pesquisa da história teatral de São Paulo, o projeto Inventário de espaços de sociabilidade cinematográfica na cidade de São Paulo (1895-1929), que organizou a documentação disponível e digitalizou grande número de projetos arquitetônicos e de engenharia[26].

Há ainda uma coleção de fotos da cidade, onde se encontram edifícios teatrais e, especificamente, um grande número de imagens sobre o Teatro Municipal de São Paulo [27].

Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

Dentre os órgãos públicos municipais destaca-se o Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo[28]. O site destaca da área teatral conjuntos documentais que registram espetáculos encenados em São Paulo nos anos 1970 e 1980. Destaque para a documentação sobre a peça Macunaíma, que mostra o processo de produção pelo Centro de Pesquisa Teatral e Grupo Arte Pau Brasil, sob a direção de Antunes Filho[29].

O Arquivo foi criado em 1982 incorporando o acervo do antigo Idart (Departamento de Informação e Documentação Artísticas - criado em 1975 na gestão do professor e crítico teatral Sábato Magaldi). Sua Divisão de Teatro foi dirigida até 1996 pela pesquisadora Maria Thereza Vargas, período no qual promovia não só o acompanhamento do panorama teatral da cidade, mas também a pesquisa e a edição de estudos sobre aspectos diversos do teatro paulistano. Seu acervo se compõe basicamente de material textual, iconográfico e audiovisual.

O Arquivo Multimeios continuou durante algum tempo publicando resultado de pesquisas a partir de seu acervo[30], mas hoje apenas atende consultas à documentação já existente e organizada, não contando mais com a equipe que fazia a cobertura diária dos acontecimentos teatrais da cidade (estreias, encontros, festivais, entrevistas etc.). Há, inclusive, importante material coletado ao longo dos últimos anos que espera há tempos por sua organização, análise e publicação.

No site do CCSP, link[31] para Arquivo Multimeios, há como realizar pesquisa no acervo de teatro, ainda que sem muitos recursos[32]. Para a pesquisa em “palavra-chave” Jorge Andrade, encontramos um primeiro registro que diz:

Palavra Chave = Jorge Andrade
1002 / Artes Cênicas - Teatro

JORGE ANDRADE - 1922/1984 - documentação -
Levantamento documental da produção artística de Jorge Andrade no período de 1922 a 1984

Praça das Artes - Secretaria Municipal de Cultura

A chamada Praça das Artes é um centro cultural dedicado à música e às artes cênicas. Em um terreno que circunda o centenário prédio do antigo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, cuja fachada se abre para a Avenida São João, foi construído um complexo arquitetônico com um total de 29 mil m², aberto ao público em 2013. Sedia ainda as escolas de dança e música municipais, a Orquestra Experimental de Repertório e o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, apresentando programação voltada para música e dança.

A Praça das Artes abriga também o Centro de Memória do Theatro Municipal de São Paulo para Arquivo Multimeios, há como realizar pesquisa no acervo de teatro, ainda que sem muitos recursos[33], formado pelo acervo do antigo museu do Theatro Municipal, que se localizava nos baixos do teatro. No site da instituição não há link para busca no acervo documental. Indica-se apenas formas de agendamento de pesquisa presencial.

Além do acervo do Teatro Municipal de São Paulo[34], o Centro de Memória da Praça das Artes recebeu recentemente parte da coleção musical Oneyda Alvarenga, que se encontrava no Centro Cultural São Paulo e o acervo completo do próprio Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP).

Precioso conjunto documental referente ao começo do século XX, e que há anos esperava por um cuidado efetivo e à altura de sua importância, é este acervo do CDMSP. Instituição centenária na cidade, primeira escola de teatro brasileira e sul-americana, fundada em 1906[35], teve seu acervo desapropriado e declarado de utilidade pública em 2008. A ação foi contestada na justiça e, como consequência, a consulta aos documentos, que já era muito precária, foi suspensa definitivamente.

A parte mais antiga do acervo desapropriado foi transferida para outra instituição pela antiga diretoria do Conservatório na tentativa de contestar a decisão judicial. O material foi encontrado[36] e o fato comunicado aos responsáveis legais pelo processo, o que possibilitou, alguns anos depois, que a totalidade do acervo fosse, finalmente, transferido para a Praça das Artes.

Hoje todo o material encontra-se sob a guarda do Centro de Memória à espera de tratamento. Registre-se ainda que sempre que o acervo é referido faz-se menção ao material relativo à música (também muito importante), até pela presença no quadro de professores e alunos de nomes dos mais significativos na área como Mario de Andrade, Luigi Chiafarelli, João de Souza Lima, Antonieta Rudge, Camargo Guarnieri, Guiomar Novaes e Francisco Mignone[37] .

Contudo, pouco se fala dos documentos sobre a escola de teatro, cuja atuação na cidade de São Paulo, até os anos de 1930, é bastante significativa. O conjunto é composto por um acervo bibliográfico[38], manuscritos, fotografias, prontuário de alunos e professores.

Central Técnica de Produções Artísticas Chico Giachierri

A central técnica do Teatro Municipal[39] foi

(...) criada para conservar, restaurar e armazenar cenários e figurinos de produções líricas e de dança do Theatro Municipal de São Paulo. Desde 2009, a área administrativa, o Núcleo de Figurinos, o Núcleo de Cenários e o Núcleo de Catalogação funcionam no bairro do Pari. Além de ser o espaço em que cenários e figurinos para as novas produções do Theatro são criados, há também um trabalho para manter atualizado o catálogo de produções, para utilização do próprio Theatro Municipal ou de outros teatros por empréstimo ou locação.

A Central de Produção Chico Giacchieri possui um acervo de figurinos que está sendo catalogado e disponibilizado na internet para seu controle e pesquisa do público. O acervo contém figurinos entre 1948 e 2014.[40]

Entre 2005 e 2006, uma iniciativa do pesquisador, cenógrafo e professor Fausto Viana, financiada pela Fundação Vitae, organizou o acervo de figurinos do Theatro Municipal de São Paulo, que naquele momento encontravam-se dispersos por diversos setores do prédio do Theatro Municipal, sem uma política de conservação que preservasse os trajes mais antigos, que administrasse o trânsito dos mais recentes e se preocupasse com novas aquisições. A autora participou do projeto como responsável pelo sistema de catalogação das peças.

Na ocasião, foram identificados, higienizados, fotografados, acondicionados e descritos em uma base de dados criada a propósito, mais de 8.000 trajes. Depois de terminado o projeto, a administração do Theatro Municipal de São Paulo deu continuidade ao trabalho, que permanece até hoje sem grandes alterações.

Embora possam ser feitas diversas críticas sobre o sistema criado naquela ocasião, ele ainda responde às necessidades da instituição e está disponível ao público pelo Portal de Acervos Artísticos da Prefeitura de São Paulo[41].

O projeto original contemplava ainda a publicação de um manual de conservação de trajes, que retraça as etapas do projeto e apresenta práticas simples para preservação de coleções de têxteis em geral, hoje disponível online[42].

Teatros Distritais da Prefeitura de São Paulo - Secretaria Municipal de Cultura/Departamento de Expansão Cultural (DEC)[43]

Além do conhecido Theatro Municipal de São Paulo, o Município de São Paulo dispõe de outros teatros distritais apresentados pelo site da Prefeitura, espalhados pela cidade. São eles: Teatro Cacilda Becker(Lapa)[44], Teatro Alfredo Mesquita (Santana)[45], Teatro João Caetano (Vila Clementino)[46], Teatro Artur Azevedo (Mooca)[47], Teatro Décio de Almeida Prado (Itaim Bibi)[48], Teatro Parque Flávio Império (Cangaíba)[49], Teatro Leopoldo Froes (Vila Cruzeiro)[50], Teatro Municipal de Santo Amaro – Paulo Eiró (Alto da Boa Vista)[51]. Contam com pelo menos[52] 1480 lugares e têm programação variada.

Há ainda outros espaços teatrais conhecidos, mas que não são mencionados no mesmo site oficial. Eles podem ser acessados, oferecendo dados mais simples em outros locais do sistema municipal de informação. São eles: Teatro Martins Pena(Penha)[53], do Centro Cultural da Penha e Teatro Zanoni Ferrite (Vila Formosa)[54], dentro da Biblioteca Municipal Paulo Setúbal.

Por sua vez, o site do DEC menciona os dez teatros distritais, mas não apresenta uma só informação sobre eles![55]

Os teatros foram construídos nas décadas de 1950 e de 1980. No entanto, não se encontra nenhuma referência ou trabalho de recuperação e preservação da memória desses espaços. Acredita-se que a documentação esteja espalhada em diversas secretarias e departamentos da municipalidade. Qualquer pesquisa sobre eles deverá necessariamente enfrentar tal dispersão.

Instituição privada: Organizações Sociais

APAA - Associação Paulista dos Amigos da Arte: Teatro Sérgio Cardoso

A Associação presta serviços ao Estado de São Paulo desde 2004. Dentre as diversas atividades que promove está o gerenciamento do Teatro Sérgio Cardoso, antigo Teatro Espéria[56].

A documentação administrativa, contratos e material de divulgação que foi criada a partir do contrato entre a Associação e o Estado está arquivada na empresa, mas não está aberta à pesquisa. Seria necessário fazer uma consulta específica aos administradores, embora, em conformidade com a lei de transparência da administração pública, disponibilize balanços patrimoniais e relatórios anuais (2005-2015) online. As informações referentes ao Teatro Sérgio Cardoso listam nome de espetáculos, número de apresentações, público pagante e não pagante.

Como se trata de um teatro bastante antigo, que passou para o Estado nos anos de 1970, sua documentação está dispersa em secretarias públicas e com particulares.

Instituto Pensarte: Teatro São Pedro

Às vésperas de tornar-se centenário, o Teatro São Pedro passou por diversos momentos de dificuldade em sua trajetória. Há 15 anos, sofreu uma grande restauração e começou a manter uma programação constante, sobretudo ligada aos espetáculos líricos. O Teatro São Pedro abriga inclusive uma Academia de Ópera para cantores líricos desde 2013.

O teatro chegou a manter um pequeno centro de memória, inaugurado em maio de 2002, o Centro de Memória da Ópera do Teatro São Pedro, construído a partir da doação de trajes vindos da antiga Casa Temaghi, loja especializada em aluguel e confecção de figurinos e adereços para teatro de São Paulo, inaugurada nos anos 20. O Centro foi desativado e os figurinos doados à ECA/USP. Hoje fazem parte do acervo do Núcleo de Pesquisa de Traje de Cena 500 trajes e 200 adereços, sendo que o mais antigo data do final do século XIX.

Quanto à disponibilização de acervo de outros documentos para pesquisa, no site do Instituto também só podemos encontrar os relatórios anuais (2012-2016)

Paço das Artes Francisco Matarazzo Sobrinho Organização Social de Cultura: Museu da Imagem e do Som (MIS)

O MIS foi criado em 1970 e seu primeiro diretor foi Rudá de Andrade, filho de Oswald. Desde 01 de novembro de 2007, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) é administrado pela Associação do Paço das Artes Francisco Matarazzo Sobrinho Organização Social de Cultura.

O museu está realizando o inventário de seu acervo (coleções e fundos) com a criação de um banco de dados[57], reunindo diversas tipologias.

O Centro de Memória e Informação do MIS (CEMIS) conta com mais de 200 mil itens. São fotografias, filmes, vídeos, cartazes, discos de vinil e registros sonoros. Entre os destaques estão depoimentos de Tarsila do Amaral, Tom Jobim, registros em áudio sobre a Companhia cinematográfica Vera Cruz, Memória do Rádio e Memória Paulo Emílio Salles Gomes. Parte desse acervo está à disposição do público na Midiateca, que dá acesso livre a publicações e cópias de difusão de obras de áudio e vídeo e fornece uma lan house e biblioteca especializada com material específico para entidades culturais e educativas.

O foco da coleção do museu é cinema, fotografia, vídeos, rádio e a televisão, mas abriga documentos relativos a artistas (depoimentos, por exemplo) que também atuaram na cena. Além disso, deve-se destacar a coleção do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). A documentação foi recebida pelo Museu da Imagem e do Som na época da realização do projeto Memória do TBC, em 1989.

O site já disponibiliza um guia do acervo[58] e um catálogo seletivo de eventos culturais[59] concluídos em 2015.

Instituição privada: Culturais

Instituto Itaú Cultural (Instituição financeira)

O Instituto Itaú Cultural tem funcionado na área teatral desde sua criação em 1987 como um fórum de discussões sobre o teatro contemporâneo sobretudo. Desde sua criação, pioneiramente, tem dedicado grandes esforços à digitalização de obras e documentos.

Oferece em seu site a Enciclopédia de Teatro Contemporâneo Brasileiro, lançada em 2004. Nela, abrem-se seis entradas para pesquisas: pessoas, grupos, obras, eventos, instituições e termos e conceitos[60]. De grande utilidade para estudantes e pesquisadores, o projeto da enciclopédia, contudo não contempla a preservação física da documentação utilizada na sua confecção. Aliás, a criação da Enciclopédia só foi possível porque os pesquisadores envolvidos (no qual esta pesquisadora estava incluída) recolheram informações nos poucos centros de documentação existentes então.

Sabe-se que a mesma vocação de interesse pela memória das artes tem levado o Instituto Itaú Cultural a desenvolver uma política de digitalização de acervos pessoais de artistas ligados ao teatro como, por exemplo, do dramaturgo Jorge Andrade e do cenógrafo Flávio Império. No entanto, não é possível acessar os documentos pelo site. No caso do dramaturgo Jorge Andrade, por exemplo, a documentação física, depois de digitalizada, foi remetida pela família ao Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo que, aliás, leva o nome do dramaturgo.

Instituto Moreira Salles (Instituição financeira)

O Instituto Moreira Salles, com sedes no Rio de Janeiro, São Paulo e Poços de Caldas, onde foi criado em 1992, dedica-se a conservação de acervos nas áreas de fotografia, em mais larga escala (mais de 800 mil imagens), música, literatura e iconografia.

O IMS recebeu a documentação de figuras ilustres da história teatral paulista: o crítico Décio de Almeida Prado e o ator Paulo Autran. Porém, também o acervo Moreira Salles não foca seu recorte temático apenas no teatro. Entretanto, e apesar de ser um conjunto documental importantíssimo para a história do teatro paulistano, toda a documentação se encontra na sede da instituição no Rio de Janeiro.

O site permite o acesso[61] a esses e a outros fundos a partir de uma lista de acervos ordenados alfabeticamente. Além daqueles dois especificamente ligados à área teatral, outras figuras têm ligações com o universo teatral e uma produção bastante importante como, por exemplo, Millôr Fernandes, Chiquinha Gonzaga e Raquel de Queiroz.

De todo modo, de uns e outros, são preservados apenas documentos textuais e iconográficos. Acessando o site é possível encontrar o texto abaixo, além de cerca de 4 fotos ilustrativas.

Academia Paulista de Letras

Trata-se de instituição, fundada em 1909, que preserva, integralmente ou em parte, os acervos de seus membros. Dentre eles, diversos tiveram atividades de ligadas ao teatro, ainda que não exclusivamente. Vale o destaque de Alcântara Machado, Claudio de Souza ou Gomes Cardim.

O acervo não é disponibilizado online[62], mas há um sistema interno que permite encontrar obras disponíveis no acervo bibliográfico. Não consta que haja outro tipo de documentação.

Instituição privada: Teatros Particulares

É claro que existem muitos outros espaços teatrais particulares em São Paulo, mas os que foram arrolados aqui podem dar uma perspectiva de como a documentação é tratada nos grandes teatros. No geral, a maior parte é vista apenas como “documentação administrativa” sem maior interesse para a pesquisa e descartada após seu período de guarda obrigatória. Por outro lado, o material referente à divulgação e registro dos espetáculos costuma ser preservado, organizados em “dossiês”, ainda que apenas para uso interno na construção de “históricos” sites e campanhas promocionais. Não costuma haver disponibilização para pesquisadores e as consultas têm que ser solicitadas aos administradores.

Com o fechamento das casas, o destino desses acervos é mais do que incerto, cabendo apenas ao proprietário o interesse em sua preservação.

Teatro Cultura Artística

O Teatro Cultura Artística, pertencente à Sociedade de Cultura Artística, criada em 1912 e dedicada à fruição da música erudita, foi inaugurado em 1950. A sociedade mantenedora, ocupava temporariamente diversos espaços da cidade até conseguir construir seu próprio teatro, inaugurado com concertos de Villa Lobos e Camargo Guarnieri.

O espaço, composto de duas salas, foi alugado entre 1960 e 1971 para sediar os estúdios da antiga TV Excelsior. O teatro foi reaberto apenas em 1977, retomando sua programação de concertos e alugando as salas também para espetáculos teatrais.

Em 2008, o edifício foi destruído por um grande incêndio, mas felizmente o acervo documental não foi comprometido. A documentação administrativa de tantos anos, que já tinha sofrido com um processo de descarte nos anos 60 para abrir espaço para a TV, sofreu mais com a água do que com o fogo. O acervo referente aos eventos artísticos não foi atingido.

Aliás, tal material foi objeto de um projeto de digitalização através da lei de incentivo, PROAC, a partir de 2011. A coleção de programas vinha sendo cuidada e mantida pela administração, que encadernava os exemplares para sua conservação. Além deles há “milhares de fotografias”, que em 2013 foram digitalizadas. Todo esse material foi também tombado pelo IPHAN[63].

No entanto, não há entrada no site para pesquisas e as consultas tem que ser solicitadas à administração.

Relatórios anuais, disponíveis no site, cobrem o período de 2014-2015.

Teatro Procópio Ferreira

Localizado na Rua Augusta desde 1948, este antigo teatro apresenta uma pequena exposição sobre o ator Procópio Ferreira[64] e o site indica alguns aspectos de sua vida e obra[65] , mas não há notícia de que haja um acervo disponível para pesquisa.

Teatro Alfa

Dos principais teatros privados da cidade de São Paulo, o Alfa destaca-se pela atenção dada à documentação. O teatro possui documentação desde sua criação em 1998. Em 2005, foi criado a partir desse material um centro de documentação e memória (CDM)[66]. Há espaço especial e tecnicamente adequado, a conservação é de muito boa qualidade e há uma base de dados para descrição do material.

O acervo é formado por registros de todos os espetáculos apresentados no teatro ao longo de 18 anos de funcionamento (programas, fotos, vídeos, riders técnicos, clippings), projetos sociais, eventos. Completam o centro as coleções de livros, dvds e cds relacionados aos assuntos tratados no CDM, ampliando a possibilidade de pesquisas sobre eles.

A consulta é gratuita mediante agendamento no CDM ou através da base de dados online[67], onde se encontram documentos digitalizados.

Instituição privada: Associações Profissionais

CTP/Memórias SESC – Serviço Social do Comércio

Ao lado de suas atividades nas mais diversificadas áreas do esporte e da cultura, o SESC mantém um ativo centro de memória, que além de ocupar-se de registrar os inúmeros eventos realizados pela instituição ao longo de 70 anos de existência, oferece diversos cursos e oficinas sobre assuntos relacionados às práticas da arquivologia, muitos deles disponíveis na internet.

Dos inúmeros espetáculos teatrais apresentados nos diversos palcos do SESC, cujos documentos são conservados pelo SESC Memórias, merece destaque o acervo relativo ao grupo teatral mantido pela entidade desde 1978, o Grupo Macunaíma.

Criado em torno do diretor teatral Antunes Filho depois do sucesso do espetáculo criado com base no romance de Mario de Andrade, Macunaíma, o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) conta com uma série de grandes sucessos teatrais ao longo dos anos. O acervo desse grupo e de seu respeitado idealizador vem sendo organizado com grande cuidado pelo SESC Memória. Dentre o material arrolado, destaque-se inclusive uma grande coleção de figurinos.

A pesquisa pode ser feita a partir de agendamento. Há um site do grupo[68] que está atualizado até 2008 e disponibiliza parte do material, sempre divididos em: fotos, vídeos (vários apresentados pelo pesquisador Sebastião Milaré) e matérias jornalísticas (digitalizadas).

SESI (Serviço Social da Indústria) – Teatro do SESI

Entre 1962 a 1993, o SESI manteve uma companhia teatral profissional criada e dirigida por Osmar Rodrigues Cruz, dedicada à popularização do teatro nos moldes do Teatro Nacional Popular do francês Jean Vilar[69] . Em 1977, o grupo passou a ter um teatro próprio localizado no edifício da FIESP na avenida Paulista. Depois da aposentadoria de seu diretor e a dissolução da companhia, até 1998, foram encenados espetáculos com diretores convidados e atores reunidos especialmente para cada montagem. Depois disso, o SESI passou a apenas apresentar produções externas.

Do acervo da antiga companhia destaca-se o conjunto de trajes que se encontra atualmente reunido na Unidade Leopoldina, mas não aberto à pesquisa. Em 2014, o cenógrafo J. C. Serroni publicou um livro sobre parte desse acervo, 50 anos do Teatro do SESI -SP. Nele, registra-se que, embora tenha havido um esforço de identificação e conservação,

[...] não podemos documentar a totalidade dos figurinos criados para nosso Teatro, já que alguns exemplares se perderam ao longo da história, extraviados ao final de tournées ou vítimas da ação do tempo. [...] nosso próximo desafio será o de criar as condições ideais de armazenamento e conservação desse acervo, para que ele se consolide como referência para pesquisadores da história do teatro brasileiro (SERRONI, 2015, s.n.p.).

O acervo preservado reúne trajes, desenhos, documentos de produção e de costura, bem como adereços. O livro apresenta trabalhos do próprio Serroni, de Clóvis Garcia, de Ninette Van Vüchelen, de Flávio Império, de Bassano Vaccarini e de Hélio Eichbauer entre outros. Até o momento, o acervo de figurinos ainda não recebeu o tratamento de conservação e acondicionamento planejado. Os documentos em papel, iconográficos e de audiovisual relativos ao grupo teatral do SESI encontram-se na biblioteca da entidade. O site indica a existência de um link para busca no acervo, mas não há informações disponíveis[70].

APETESP - Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo: Teatro Ruth Escobar e Teatro Maria Della Costa

A APETESP foi criada em 1972 com fim de promover e estimular as artes cênicas e os contatos da área junto aos órgãos oficiais. A Associação é proprietária de dois teatros na cidade.


*Teatro Ruth Escobar

Construído em 1963 por Ruth Escobar, o teatro sediou inúmeros espetáculos importantes, como O balcão, de Jean Genet, ou Roda Viva, de Chico Buarque, além de ter sido sede dos lendários Festivais Internacionais de Teatro promovidos pela atriz.

O teatro foi comprado em 1997 pela APETESP, que tem planos de transformá-lo em um Centro Cultural.


*Teatro Maria Della Costa

Teatro erguido pela atriz Maria Della Costa e seu marido, o ator e diretor, Sandro Polloni em 1954. A companhia Maria Della Costa havia se transferido do Rio de Janeiro para a capital paulista onde decidiu construir uma sede para seu grupo. A estreia se deu com O canto da cotovia, do francês Jean Anouilh. Além disso, a companhia apresentou A moratória, de Jorge Andrade, um dos textos mais importantes da dramaturgia nacional, e a primeira montagem profissional de um texto de Bertold Brecht – A alma boa de Setsuan.

A APETESP comprou o edifício em 1978 e o reformou em 1996.


Embora se trate de dois edifícios históricos de São Paulo, não apenas por sua antiguidade, mas pelo papel que tiveram no desenvolvimento da cena brasileira, não há acervos organizados e disponíveis para pesquisa. Ao que se sabe, a documentação das companhias originais continua com seu titulares (Ruth Escobar e Maria Della Costa). No caso da primeira, a disputa judicial entre os três filhos da atriz, que sofre do mal de Alzheimer, pelo legado documental tornou-se matéria de interesse da imprensa.

No caso de Maria Della Costa, parte do acervo está na posse do Arquivo Público do Estado de São Paulo, parte com um pesquisador particular e parte com a FUNARTE.

CPT - Cooperativa Paulista de Teatro

Fundada em 1979 agregando cerca de 50 grupos teatrais a CPT chegou a 2009 com mais de 4.000 associados. Desde o início de suas atividades, publicou uma revista, Camarim, disponível online até o número de 2012[71]. Em 2009, teve um livro com sua história publicado (Trinta Anos da Cooperativa Paulista de Teatro, de A. Mate)

Seu acervo não está disponível online e pesquisas têm de ser previamente agendadas e aprovadas.

APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte

Fundada em 1951 por Nicanor de Miranda como Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ACT). Cinco anos mais tarde, transformou-se na Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT).

Desde 1956, distribui prêmios para a área do teatro. Com o passar do tempo, foi incorporando à sua perspectiva outras áreas das artes cênicas, como a dança, e mesmo outras áreas artísticas, como as artes visuais.

Não foi possível encontrar nem mesmo um site da Associação.

SATED - Sindicato dos artistas e técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo

Entidade de classe criada em 1934, congrega artistas de várias áreas das artes cênicas, como teatro e circo. O acesso às fichas dos associados, atas de reuniões e outros documentos relativos às atividades do sindicato ao longo dos anos, que são ainda encontradas em papel, só pode ser feito com autorização especial do sindicato. Há um arranjo muito simples do material, seja por ordem alfabética da ficha de inscrição dos associados, seja por ano das atas, e assim por diante. O sindicato manteve uma publicação, Aplauso, desde 1997, e disponibiliza o acesso via site entre 2012 e 2014 apenas.

Instituição privada: Ensino

Ordem dos Salesianos – Colégio Sagrado Coração de Jesus

Erguido no começo do século XX, o Colégio Salesiano Liceu Coração de Jesus, situado no bairro dos Campos Elíseos, em São Paulo, possui um dos mais antigos palcos da capital. A escola distinguia-se, nesse período, por oferecer a possibilidade de formação profissional como ator ou músico a seus alunos. O teatro, originalmente destinado às atividades internas do colégio, foi reformado nos anos de 1950 e, hoje, transformou-se no Teatro Grande Otelo (ator que foi antigo aluno da escola), aberto a espetáculos e público externos.

Como o Liceu sedia também a uma regional da congregação salesiana, nele encontra-se o arquivo da instituição e um museu. Em ambos locais é possível encontrar documentos (planta, fotos, matérias jornalísticas) e referências ao centenário teatro do colégio. Pesquisas devem ser agendadas no Museu ou no Arquivo.

TUCA – Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Pontifícia Universidade Católica)

Teatro fundado em 1965 com importante trajetória na cena paulistana. Por isso mesmo, em 2005, criou um Centro de Documentação e Memória próprio[72].

Em 2010, com o apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e o patrocínio do Banco Safra, o CDM Tuca sofreu adequações físicas para receber mobiliário, equipamentos e materiais adequados à conservação de documentos de importância social. Ainda em 2011, uma parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo possibilitou o desenvolvimento do projeto de digitalização de parte substancial do acervo, aumentando as possibilidades de preservação e difusão de séries expressivas de cartazes teatrais, fotografias e, sobretudo, dos processos administrativos que permeiam a execução dos espetáculos nos palcos do Teatro.

O Centro disponibiliza um guia do acervo online com descrição do “fundo TUCA” e das coleções existentes. As condições de conservação e acondicionamento são bastante boas e o acervo está sob responsabilidade de profissionais capacitados.

Instituição privada: indústria

Memória Votorantim

Local insuspeito para a procura de acervo teatral, o Centro de Memória das empresas Votorantin[73], grupo econômico criado pela família Moraes, preserva documentação referente às atividades dramatúrgicas de seu dirigente, Antônio Ermírio de Moraes, autor de peças como Brasil S.A., S.O.S. Brasil e Acorda Brasil, escritas entre o fim da década de 1990 e a primeira década dos anos 2000. Como se pode imaginar, tendo em vista os recursos disponíveis em uma empresa desse porte, a documentação recebeu os cuidados de conservação e acondicionamento adequados.

Indivíduos

Instituto Gianni Ratto

Entidade criada para preservar a obra do diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista, tradutor, escritor e ator italiano radicado no Brasil, Gianni Ratto, divide-se em “acervo plástico”, “hemeroteca” e “biblioteca”[74]. O acervo foi organizado com apoio do Ministério da Cultura e da Petrobrás entre 2008 e 2009. Durante um ano, uma equipe identificou os documentos, deixando-os higienizados, acondicionados em mobiliário apropriado (mapotecas, caixas de polionda e estantes) em uma casa no bairro paulistano do Pacaembu, pertencente ao diretor. Uma base de dados foi criada para descrever o material textual, mas as informações restantes estão inseridas em planilhas de Excell. Findo o cronograma do projeto, todo o material foi transferido para um novo local em 2011, uma vez que a família se desfez do imóvel e a viúva mudou-se para um apartamento, onde continuou organizando o acervo. Atualmente, a biblioteca, com cerca de 4 mil volumes, encontra-se espalhada pelo imóvel, sendo que um dos cômodos abriga o restante dos documentos. A consulta pessoal de pesquisadores ao acervo é muito rara, embora houvesse maior número de visitantes online. Atualmente, o site encontra-se em “construção”, informando apena endereço eletrônico e telefone para contato.

Embora se denomine “Instituto” (supostamente uma organização que promove a pesquisa científica, ou tem finalidades filantrópicas), a entidade não desenvolve nenhuma outra atividade além da preservação da documentação.

Instituto Osmar Rodrigues Cruz

Diretor e criador do Teatro Popular do SESI, Osmar Rodrigues Cruz esteve à frente do grupo durante 40 anos. Sua filha única criou o Instituto[75] para preservar a enorme biblioteca (calculada em 20 mil itens, incluindo livros, manuscritos e revistas datados desde o século XVII).

A face pública do Instituto é um blog que, desde 2012, reproduziu alguns textos de Cruz e digitalizou programas de peças das décadas de 1940 e 1950, alguns completos, outros apenas com página central. Não fica claro qual o critério para a apresentação do material. Não há nenhuma possibilidade de busca ou pesquisa. O Instituto localiza-se na residência da responsável pelo blog e qualquer consulta depende de sua permissão. Até onde se sabe, o acervo não passou por nenhum tratamento profissional.

Acervo pessoal de Cyro Del Nero

Cenógrafo e figurinista Cyro del Nero atuou no teatro brasileiro desde a década de 1950, tendo trabalhado com importantes grupos como o TBC. Sua carreira também abrange trabalhos em países europeus. Além disso, cenografou outras atividades, como os famosos desfiles da Rhodia nos anos de 1960, ou novelas de televisão.

O acervo estava sendo organizado por ele em uma casa no bairro do Butantã, acabou sendo transferido para a residência de sua esposa, que o conserva até hoje.

Del Nero manteve um blog até 2010, no qual postava textos sobre aspectos artísticos e histórico da cenografia, figurino, música, entre outros temas. Ele ainda está acessível. Houve início de entendimentos para transferência de seu acervo à Universidade de São Paulo, mas as negociações não se concretizaram até o momento.

Sociedade Cultural Flávio Império

Cenógrafo, arquiteto e artista plástico, Flávio Império foi também professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Ligado ao teatro paulista e destacados grupos, como o Teatro de Arena, Flávio Império teve importantes trabalhos realizados nas suas diversas áreas de atuação.

Existe uma Sociedade Cultural Flávio Império que disponibiliza um belo site[76] dedicado à vida e obra do artista, onde se registra que “ele teve por objetivo dar continuidade ao trabalho de preservação, catalogação e divulgação da obra do artista, desenvolvido desde 1987. [...] Sua publicação foi viabilizada pelo apoio do Instituto Itaú Cultural que compreendeu, inclusive, a digitalização do material do acervo e a elaboração do bando de dados [...]” (autor-data). Há possibilidade de pesquisa.

Em 1994, houve o lançamento do Projeto Flávio Império – preservação, catalogação e divulgação, que envolveu diversas etapas: ordenação e catalogação das obras e documentos, pesquisa e desenvolvimento do banco de dados; travessia; projeto de restauro e destinação pública; elaboração de modelo de banco de dados relacionados; desenvolvimento de modelos eletrônicos de cenografia; revisão do acervo e catalogação.

Também houve início de entendimentos para transferência de seu acervo para a USP, mas as negociações não se concretizaram até o momento.

Acervo Gouveia-Vaneau

Acervo híbrido de teatro e dança é composto pelos documentos da bailarina Célia Gouveia e do diretor, cenógrafo e figurinista belga radicado no Brasil, falecido em 2007, Maurice Vaneau. Em 2012, o conjunto do casal recebeu tratamento profissional, executado com apoio de verbas do XII Programa de Fomento à Dança da Secretaria Municipal de Cultura. Diversos documentos foram digitalizados e encontram-se disponíveis num belo site, ainda que não se possa fazer consulta espontânea. As informações estão disponíveis por ordem cronológica e por assunto.

O site tem sido regularmente atualizado. Para outras consultas é necessário fazer agendamento com Célia Gouveia[77].

Plínio Marcos

A família do dramaturgo paulista Plínio Marcos mantém um site[78] construído, como se pode ler logo em sua página principal, a partir do acervo do dramaturgo, conservado por eles. Há material sobre suas atividades no cinema e na televisão além do teatro. Constam prêmios, fotos, matérias jornalísticas.

Outros

Além dos casos de acervos pessoais apresentados acima, e que vêm tentando encontrar soluções “institucionalizadas”, poderíamos indicar outros que necessitam encontrar um destino seguro para seu acolhimento. Podemos lembrar os casos do diretor Antonio Abujamra, da atriz Ruth Escobar, dos casais de artistas Nydia Lícia e Sérgio Cardoso, Raul Cortez e Célia Helena, do também diretor Luiz Roberto Galizia, da atriz Marília Pera e muitos mais.

Sobre outros ainda, como o do crítico e professor da ECA/USP, Sábato Magaldi, cuja documentação foi enviada para uma biblioteca em Minas Gerais recentemente, só podemos lamentar que tenha se desgarrado do patrimônio cultural paulista. O mesmo se poderia dizer dos de Décio de Almeida Prado e de Paulo Autran, que se encontram no Rio de Janeiro.

Instituição privada: grupos e companhias teatrais

Para além dos acervos pessoais, devemos atentar também para a riqueza de informações contida nos documentos de companhias e grupos teatrais. Em muitos casos, tais documentos se “espalham” pelos acervos individuais de cada um de seus componentes. Desse ponto de vista, anuncia-se sempre necessária e trabalhosa a recomposição da trajetória de um conjunto teatral.

Por outro lado, há tipos de documentos que podem não dizer respeito especificamente a nenhum dos integrantes da companhia ou grupo, mas sim da “sociedade”, da “empresa” etc. A quem cabe a preservação desse material? Talvez aos fundadores, aos diretores administrativos, ou diretores artísticos. Tudo depende muito do tipo de produção levada a cabo pelo conjunto, o que tem mudado bastante nas últimas décadas.

Se tomarmos, por exemplo, o caso do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, será possível identificar uma administração central, que embora relacionada com as atividades propriamente criativas, não se confunde com ela.

Assim, o acervo de Franco Zampari “diretor” (não no sentido de diretor cênico) da companhia seria de grande interesse. Bem como, claro, o acervo do diretor cênico, do artista Flávio Rangel. Isso sem mencionar todos os demais envolvidos nas produções ao longo dos anos. Do TBC poderíamos, inclusive, mencionar a documentação do espaço físico, o edifício teatral.

Quando se pensa, por outro lado, nas formas mais antigas ou modernas de produção teatral, as questões se apresentam de outra maneira. Na antiga tradição teatral, que prevaleceu durante décadas, desde o século XIX até por volta de 1950, o empresário e o primeiro ator da companhia se confundiam na mesma figura. São exemplos os atores João Caetano de Sousa, Procópio Ferreira, Jaime Costa, Dulcina de Morais, apenas para citar os mais conhecidos.

Quanto aos formatos mais modernos e contemporâneos de teatro (embora modelos mais tradicionais ainda permaneçam presentes), deve-se considerar que a produção coletiva ou colaborativa dos espetáculos emerge de práticas nas quais as funções se misturam, se alternam e se completam, ficando mais difícil identificar a quem caberia manter o acervo referente ao grupo como um todo. Provavelmente, a figura do encenador contemporâneo (que não se confunde com o diretor artístico) ainda acabe centralizando o que é produzido coletivamente.

Por outro lado, nos últimos anos, uma produção teatral oriunda de elementos formados e articulados nas universidades tem desenhado um perfil de artistas que se preocupam em deixar registrados seus processos de trabalho. Tal prática tem gerado um importante material bibliográfico, constituído a partir de uma recolha de documentação empreendida pelos próprios protagonistas do fazer artístico. O mesmo interesse na divulgação dos trabalhos (processos e resultados) foi favorecido pela facilitação ao acesso aos meios digitais de comunicação, como sites, blogs etc. Desse modo, é possível encontrar inúmeras páginas na Internet com a trajetória, pesquisa, espetáculos e publicações dos grupos.

Indicamos aqui apenas alguns exemplos:

O grupo Teatro Oficina, ou melhor, Associação Teat(r)o Uzina Uzona, é a companhia mais antiga em atividades em São Paulo, tendo já comemorado 58 anos de existência.

Uma parte importante do acervo, referente a seus primeiros anos de existência, encontra-se no Arquivo Edgard Leurenroth (AEL), da Universidade de Campinas. O restante permanece, na Casa de Produção, com a companhia, que tem a prática de registrar em vídeo a intensa atividade cênica do grupo, preocupando-se não só com a qualidade técnica, mas também artística do registro. No site é possível assistir a alguns deles, bem como acessar outros tipos de documentos com uma série de atas (2004-2013) da Associação.

Abaixo, relacionamos sites e blog de outras companhias paulistanas:

Vale, contudo, lembrar que os grupos divulgam o que julgam mais adequado ou relevante, o que, nem sempre, pode ser o que mais interessa ao pesquisador. Além disso, o destino dado à documentação física, depois de ter sido digitalizada e disponibilizada, parece ser tão indigente quanto àquela produzida pelos grupos de tempos passados. Em geral, recolhe-se tudo em caixas, pastas e malas que às vezes são destinadas aos fundos de armários e gavetas.

São raras as iniciativas de grupos que se detenham em se questionar sobre o destino de tais materiais ou se deem ao trabalho de organizá-los de forma adequada e consequente, se possível, disponibilizando-os para pesquisadores externos. É claro que podemos argumentar que essa não seria mesmo sua tarefa. E que sobreviver no difícil mundo teatral já é trabalho suficiente.

Uma pesquisa sobre o estado exato de organização de cada um desses grupos, e outros mais existentes na cidade, demandaria um tempo de pesquisa e espaço de registro que não é possível no momento.

No entanto, a questão permanece. O que acontece quando o grupo não dispõe de alguém encarregado de atualizar o site ou blog? O que acontecerá quando o grupo se desfizer? Até quando as informações continuarão disponíveis?

Por um Centro de Documentação Teatral

Não será possível neste artigo fazer maiores considerações sobre todos os acervos listados acima. Com o exposto, fica patente que não existe em São Paulo um centro de documentação e estudos amplo (que se proponha a abranger todos os aspectos do fenômeno teatral) regular, confiável e dinâmico, dedicado exclusivamente à preservação da memória do teatro paulistano e ao desenvolvimento de pesquisas nessa área. Fica claro ainda a urgência e a relevância de se organizar tal centro com porte adequado, para receber e abrigar convenientemente o riquíssimo patrimônio cultural do universo teatral paulistano, desenvolver e fomentar a pesquisa a partir dele.

O Centro de Documentação Teatral da ECA/USP (CDT – que combina o Laboratório de Informação e Memória do Departamento de Artes Cênicas e o Núcleo de Pesquisa de Traje em Cena – NPTC) pretende ser esse centro[79].

Até o momento, contando com poucos recursos financeiros e de pessoal, foi possível organizar parcialmente uma base de dados, disponível na Internet, higienizar, acondicionar e catalogar cerca de 500 cartazes, mais de 1.000 programas de teatro, 15 mil recortes de matérias jornalísticas sobre teatro (a partir da década de 40), centenas de releases, programações de cursos, figurinos, oficinas, eventos, festivais, além de documentos relativos à história do Departamento, da ECA e de instituições com o Serviço Nacional de Teatro, Inacen e Funarte. Contudo, muito mais pode e deve ser feito.

A existência de um centro de documentação e referência se justifica pela inegável e óbvia importância da arte teatral como uma das mais genuínas e antigas formas de expressão cultural humana e pela urgência e necessidade específica de se preservar a história do teatro paulistano.

Notas

Referências