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Centro de Difusão e Apoio à Pesquisa


Paleografia recupera documentos do passado

Os documentos mais antigos do acervo permanente do Arquivo Público do Estado de São Paulo são sempre fonte de interesse do público. Quem não fica curioso, por exemplo, para ler o inventário do sapateiro Damião Simões, datado de 1578, em pleno Brasil Colônia? Além da simples curiosidade, ou do empenho do pesquisador, muitas pessoas procuram a consulta do Arquivo interessadas em documentos para propósitos legais. Por exemplo, um inventário feito em 1760 até hoje tem efeitos para a Justiça brasileira. Daí o Núcleo de Assistência ao Pesquisador do Centro de Difusão e Apoio à Pesquisa já ter emitido certidão comprobatória deste documento.

Entre o interesse do público e o documento, entretanto, se ergue uma barreira: a letra. Para um leitor moderno, na maior parte das vezes a caligrafia utilizada nestes manuscritos é indecifrável. Por isso, o Arquivo oferece também um serviço de paleografia.

Segundo Aparecido de Oliveira da Silva, diretor do Núcleo de Assistência ao Pesquisador, a formação do paleógrafo se compõe de muito estudo, mas principalmente prática. “Cada novo documento é um desafio”, diz ele. A disciplina suscita interesse de profissionais de três áreas: historiadores, arquivistas e também advogados, focados no aspecto legal da questão. O interesse do público é grande, e para atendê-lo, o Centro de Difusão e Apoio à Pesquisa promove periodicamente Oficinas de Paleografia.

Os documentos oficiais brasileiros variam bastante quanto à sua legibilidade. Por exemplo, documentos do século XVI e XVII, como o inventário do sapateiro, são de leitura muito difícil. O papel em geral está danificado, a tinta está apagada e de forma geral essa época é considerada como de decadência da caligrafia. Ou seja, trata-se de um momento em que a letra das pessoas estava se deteriorando.

Uma dificuldade adicional: como as penas utilizadas eram muito ruins, o escrivão em geral escrevia sem separar as palavras, para não interromper o fluxo da tinta. Imagine-se a dificuldade do paleógrafo, séculos depois...

No século XVIII, a arte da boa escrita volta a ser cultivada, para decair novamente no final do XIX, graças à invenção de meios mecânicos de escrita (máquina de escrever), e mais tarde à chegada dos editores de texto. Hoje, vivemos numa época de caligrafia ruim.

Aparecido explica que a melhor abordagem para paleografar o texto compreende diversas etapas, relacionadas à compreensão dos vários aspectos do documento. Em primeiro lugar, o paleógrafo identifica a forma como são escritas as diversas letras do alfabeto, a começar pela inicial (canônica). É aí que ele toma posse das “chaves” do texto, entendendo, por exemplo, o desenho das maiúsculas e minúsculas; ou os padrões de ligação entre duas letras.

A fase seguinte envolve a compreensão da estrutura do texto como um todo, inclusive a partir do formato e das formalidades do documento. Documentos oficiais costumam  seguir as mesmas fórmulas, de acordo com a sua tipologia. Ou seja, os requerimentos sempre terão os seus parágrafos e a sua tipologia em arranjos semelhantes, que podem ser reconhecidos por um leitor experiente. Assim, acrescenta-se mais uma camada ao reconhecimento do texto. É a chamada análise diplomática.

Com a transcrição da primeira página, já se tem uma base para a compreensão do resto do documento. “Na segunda página, a compreensão é mais fácil. E a partir da terceira, o paleógrafo já está dialogando com o escrivão”, diz Aparecido.

Importante na paleografia, também, é entender o significado das diversas abreviaturas presentes no documento (veja exemplos abaixo). Abreviaturas são condensações de palavras, muito frequentes nos séculos XVIII e XIX. Existem centenas delas, e o seu conhecimento é indispensável para o paleógrafo.

Para quem se interessar pelo assunto, vale uma consulta aos sites e à bibliografia relacionada abaixo.  

Algumas abreviaturas

AA – altezas (sécs. XVIII-XIX)
aaggrª – agregada (sécs. XVIII-XIX)
Abztes – ausentes (séc. XVIII)
Acbpó – arcebispo (séc. XVII)
aCauº - a cavalo (sécs. XVIII-XIX)
aVxCa – a vossa excelência (sécs. XVIII-XIX)
azpertaz – as partilhas (séc. XVII)
Breuide – brevidade (séc. XVIII)
CaLvagdte – Cavalcante (séc. XIX)
Capjtn – capitão (séc. XVI)
Cathª – católica (séc. XVIII)
Depuzitrº - depositário (sécs. XVIII)
deStos – de Santos (sécs. XVIII-XIX)
deXpto – de Cristo (séc. XVIII)
DEVSGde – Deus Guarde (séc. XVIII)
natttria – na testamentária (sécs. XVIII-XIX)
Nauos – navios (séc. XVIII)
Testtrº - testamenteiro (sécs. XVIII-XIX)
Testttrª – testamenteira (séc. XVIII)
JCNSor – Jesus Cristo Nosso Senhor (séc. XIX)
Jesuxpº - Jesus Cristo (sécs. XVI – XVIII)
Mage q’ Ds gde e a Vmce pr msans – Majestade que Deus Guarde por muitos anos (séc. XVIII)
Tttrº do dº defto – testamenteiro do dito defunto (séc. XVIII)

Bibliografia

ARAÚJO, João Candido Graça; RITCHER, Eneida Izabel Shirmer. Paleografia e Diplomática no Curso de Arquivologia. Santa Maria (RS): UFSM, 2007.

BELLOTO, Heloisa Liberalli. Arquivos Permanentes: Tratamento documental. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

BERWANGER, Ana Regina; LEAL, João Eurípedes Franklin. Noções de Paleografia e Diplomática. Santa Maria (RS): Editora UFSM, 2008.

BLANCO, R. Román. Estudos Paleográficos. São Paulo: Laserprint, 1987.

FACHIN, Phablo Roberto Marchis. Descaminhos e dificuldades: Leitura de manuscritos do séc. XVII. Goiânia: Trilhas Urbanas, 2008.

MENDES, Ubirajara Dolácio. Noções de Paleografia/ Ubirajara Dolácio Mendes. 2a ed. – São Paulo: Arquivo Público do Estado de São Paulo, 2008.

NUNES, E. Borges. Abreviaturas Paleográficas Portuguesas. Lisboa, 1981

FLEXOR, Maria Helena Ochi. Abreviaturas – Manuscritos dos séculos XVI ao XIX. 3a.ed. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2008.

Sites úteis

www.filologia.org.br
www.arquivonacional.gov.br